
Chego já no fim do jantar de aniversário do meu avô.
Atrasei-me, mas não esperava ver os talheres sujos, usados, arrumados no prato como quem encerra um momento.
Entrei acelerada, o meu ritmo era ainda o de quem trabalha descompassadamente de manhã à noite.
Antes do prato pedi vinho. Abrandei a voz, o ritmo, o coração.
Perdi a vontade de jantar quando percebi que não tinham esperado por mim, fui a correr... atrasada... Atrasei-me. Mas fui.
"Nós jantamos sempre às 20H" - diz tudo em tom doce.
O avô chegou sempre a casa à mesma hora, durante anos e ninguém jantava atrasado, nem mais tarde, nem mais cedo, todas as noites às 20h jantávamos todos à mesa, sempre a mesma hora, as mesmas rotinas, anos e anos e tantos anos.
O avô nunca entrou em casa acelerado, nunca chegou stressado, nunca foi interrompido, ao longo de um jantar inteiro, por telefonemas de trabalho. Sempre respeitou que o jantar é à hora certa e em família, mas se eu quiser imitar o avô e apesar de ser o seu dia de anos, tenho de mudar de emprego, de cidade, de vida, de coração.
Talvez recuar anos. A vida não é mais igual, nem o coração é da mesma matéria. Já não é.
Ainda me desculpo e digo que ninguém janta às 20H hoje em dia, não por capricho, mas porque o tempo mudou, como a nossa moeda, como o mercado.
De repente percebo que em 30 mts jantei, falei à pressa e foi tudo a correr, porque as horas de jantar também são cronometradas, mesmo que a seguir só se queira regressar para ver as novelas todas da TVI.
Sou demasiado diferente: para mim não há horas certas para nada porque a prioridade é o trabalho se quero receber ao fim do mês, não há televisão que me faça jantar em silêncio e ignorar quem está à mesa, não há horas marcadas para comemorar os teus 82 anos, porque a vida não nos dá prazos sobre a nossa existência, corre e temos de a saber saborear, mesmo que o relógio passe das 20h.
Não temos o mesmo ritmo cardíaco, não andamos no mesmo compasso, nem a vida nos exige o mesmo, já cumpriste o teu papel, eu tenho um esboço ainda do que quero cumprir.
Falhei nas horas, mas achei que esperavas por mim sem os talheres já arrumados.
Para o ano pode já não existir... Talvez até primeiro para mim...
E a vida vale muito mais do que uma hora marcada para os afectos.
Fui ver uma peça de teatro, sobre o corpo e as relações humanas e talvez mesmo que já não entendesses, espelha o HOJE que somos...
E QUANDO O CORPO SE APAGA, O QUE RESTA?