Novembro 25, 2014

"Basta que me batas uma vez"

Como milhares de mulheres eu também já fui mal tratada.
Como tantas também já sofri ameaças e um profundo terror psicológico.
E nesses casos, tempo algum apaga as marcas que foram deixadas.
Como muitas mulheres, eu já tive medo e sofri calada a pensar nas consequências e nos danos.
Como qualquer pessoa fisicamente mais fraca já tive de ser a mais forte.
Como qualquer pessoa mal tratada aprendi a ser mais agressiva se preciso for para me defender.
25 de Novembro. No dia em que prestamos apoio a todas as vítimas de violência doméstica é importante dizer que há coisas que basta que nos façam uma vez, para que nunca mais voltem a acontecer.

Separamo-nos quando achamos que fomos desvalorizados.
Quando achamos que nos passaram para segundo plano.
Separamo-nos quando achamos que merecemos melhor, mesmo que o preço a pagar seja ficarrmos à espera eternamente sós.
Quando achamos que a tristeza é maior que a tolerância para saber levar.
E quando os de fora dominam a vida que deveria ser apenas propriedade de dois.
Separamo-nos quando temos carácter e coluna.
Quando temos personalidade e vontade própria e não vivemos na sombra e das sobras de um qualquer alguém.

Novembro 20, 2014


Nunca quis ser uma mulher de carreira.
Nunca fui ambiciosa desmedidamente.
Em nada.
Mas o poder e a inteligência sempre me causaram algum fascínio, para aqueles que usam bem estes atributos.
A minha vida passa a voar entre reuniões e influências e jogos de poder.
Hoje vi-me de fora no meio de uma reunião e nunca tinha percebido bem até onde já tinha chegado.
E concluo que a única coisa que nada ambicionei, foi para já a única que foi bem sucedida.
Não deixa de ser estranho...
Não deixa de ser desafiante.

Novembro 19, 2014


As crianças podem pedir afeto e colo e ninguém as censura.
Podem ser o centro das atenções de todos e podem pedir mimo extra como se nunca nada chegasse.
É como se tivessem um direito divino a ter prioridade máxima para tudo.
Às vezes queria ser pequena de novo para ter o privilégio de ter tudo isso.
Sem ninguém para me criticar porque o afeto já não se pede.
Eu queria ser pequena para receber amor em dose gigante e não sair magoada.
E ter a prioridade de ser amada por alguém sem dúvidas nem hesitações. Sem competir, sem disputar nada.
Mas esse tempo passou.
E no tempo que foi meu não consegui ter tempo para tudo.
Eu queria poder pedir afeto e colo e não ser julgada por isso.
Porque eu só sou feliz e movo-me se me sentir amada.

Novembro 17, 2014


" As semanas passam umas atrás das outras e mantens esse olhar triste. Às vezes olho para ti no trabalho e mesmo com mais gente tens uma tristeza profunda, interior"".
Fiquei com vontade de chorar mas contive-me e disse que era feliz.
Mas não sou boa a mentir.
O olhar trai-me a palavra que acho que ainda é o que comando.
Tento procurar pontos de fuga mas os olhos inundam-se como uma comporta que rebentou.
Cá dentro mora uma dor tão aguda quanto fina e isso vê-se no olhar e na pele que perdeu brilho.
Eu perdi-me.
Entre o passado que perdi o controlo e a falta de perspetiva que tenho hoje.
Perdi tudo.
Não consigo articular uma palavra certa. Não tenho nada para dizer.
Subo calada no elevador e ao chegar à sala pergunto então se me pode dar o nome da tal clínica onde podemos ser mães sozinhas. Só por nossa conta, sem pais. Ou com pais sem rosto.
"Claro que sim. Eu dou-te. Não é o fim do mundo".
Claro que não.
É só outro começo que nunca quis para mim.

Novembro 16, 2014


Quebrei por dentro.
Acordo sem alma e sigo os dias sem vontade de me suster.
Parece que passou um furacão pela minha vida inteira e deixou tudo fora do lugar, em cacos.
Os dias seguem-se uns atrás dos outros sem sentido.
Não tenho vontade de começar nada. Nem o dia. Nem eu de novo.
Corri demais, tentei demais. Fiz coisas a mais e esgotei-me.
Eu esgotei-me.
E perdi a vontade de voltar a viver tudo do zero.
Amanhã é mais um dia só mais um sem me trazer nada de novo.
E a seguir, segue-se o mesmo silêncio sem respostas a nada.
São dias atrás dos outros que odeio. Sem nexo.
Não vem nada. Não há respostas aqui dentro.
Eu quebrei.
E a alma caiu-me aos pés e teima em não mais se levantar.

Novembro 14, 2014

Não tenho idade para ter anjos da guarda nem amigos protectores.
Tenho toda a idade que legitima a minha vontade de querer ter um namorado, alguém real ao meu lado.
O tempo de espera acabou.
E as ilusões e as expetactivas ficam para os contos de fadas dos outros,
A minha vida é bem real.
E está toda aqui ao lado.
Basta abrir a porta.
E ela entrará toda por inteiro.
Basta eu querer.
E eu quero.
Cansei-me de esperar pelo que nunca chegou.

Chove demasiado e o tempo abana as estruturas.
Comecei a manhã nas escadas do prédio ao telefone a chorar que nem uma criança a pensar que não sou feliz e que tenho de mudar algo.
Fugi da minha equipa inteira porque não lhes posso mostrar que sou humana e frágil.
Mas sou e acordei com a ideia clara que não sou feliz.
Não sou feliz há tempo demais e já chega.
O dia corre devagar como a minha cabeça e o meu humor.
Engulo o mau humor e as lágrimas à medida que o tempo passa.
Passo o dia a comportar-me como uma máquina sem sentimentos e sem alma. 
A tarde cai e a chuva não pára.
Fechamos todos os computadores e marcamos encontro num bar perto.
Vamos chegando à medida que encerramos mails urgentes.
Pedem-se todos os tipos de Gin e vamos-nos sentando.
O bar enche connosco.
Ficamos uma hora.
E outra.
Passam horas e o dono do bar acaba sentado connosco.
Os copos seguem-se  uns atrás dos outros e começo a rir.
De repente começo a achar graça à minha vida, à vida dos outros.
Sinto que preciso de beber para me rir.
As mesas cruzam-se e cruzam-se contactos.
Somos tantos e tantos sozinhos.
Perco a noção do tempo.
E já nada me preocupa,
Não devo nada a ninguém.
Ninguém mais me espera.
Estou por minha conta...
Volto ao carro já a noite começou e vou a rir sozinha à chuva sem medo do vazio.
Comecei a manhã a chorar.
E hoje ao fim do dia percebi que sou feliz só comigo e  que estou completamente disponível para recomeçar tudo.
Ou viver tudo do zero.
Ou recomeçar o que ficou a meio.
Estou por minha conta e sei que me hei-de apaixonar por mim.
Pela vida que me espera,
Mas sei que me espera algo porque há vida demais em mim para que se acabe tudo já assim tão depressa.

Novembro 13, 2014

auto-retrato



Para sempre é sempre por um triz.

Há uma dor presa que não me deixa partir.
Uma dor que me arrasta como uma alma pequena que espera um resgate que nunca virá.
Há uma dor fininha tanto quanto é silenciosa perante a ausência.
A ausência de amor e de vida. E de uma presença. Da companhia.
E eu espero cega e ignorante por uma coisa que não vem.
Espero pelo que não sei.
O tempo passa.
Os meses passaram e a dor teima em não abrandar.
Nem a saudade.
E o vazio não se preenche de forma nenhuma, apenas com a vontade de que tudo acabe subitamente.
Tenho uma dor residente dentro de mim que não consigo arrancar e que o tempo não está a conseguir curar.
E dói tanto mas tanto que só quero que acabe.
No mesmo sopro com que apareceu.



Novembro 12, 2014


Hoje enviou uma mensagem inesperada.
"Ligue, estou com os avós".
Prometi que então ligava mal pudesse.
Atendeu prontamente e do lado de lá ouvi "é a mãe?".
Respondeu só que era a Joana como se isso servisse para justificar tudo.
Falei com ele e com a avó.
Matei saudades e fiquei mais em paz comigo por saber que sentem a minha falta.
Dizem que os sogros são para sempre.
E os enteados também.
Não casei, mas em tempos tive um enteado Miguel na minha vida que podia ser meu filho.
Não foi,
Mas gosta de mim.
Só porque sim.
E eu sinto a falta que alguém goste de mim assim...

grito


Novembro 09, 2014



A minha avó está doente.
Já não sabe bem tudo da vida e vive num mundo que é só dela.
Tem um olhar ausente de quem já não é de cá.
A minha avó ouve quando falamos dela e finge que não sabe que ela é a protagonista.
Às vezes à noite quer vir para minha casa porque diz que a mãe dela está cá comigo.
O avô não a deixa vir porque ele acha que ela está demente.
Eu acho que ela não está demente em tudo.
Diz coisa certas e faz coisas certas.
Vê o que os meus olhos não alcançam.
A minha avó está de partida e eu sinto isso.
Ainda olha para mim com ar de pena porque acha que merecia encontrar um marido como ela tem o dela.
E eu em dias como hoje gostava de lhe pedir desculpa por ter falhado tanto e ter tido tanto azar.
Mas a avó nunca entenderia que os tempos mudaram e hoje trabalhamos tanto quanto os homens e chegamos a casa e ainda temos que ser donas de casa. E que hoje já não aguentamos ser mal amadas, preferimos a solidão.
Às vezes acho que a avó está à espera que eu me apaixone por alguém que também me ame, para ela poder partir.
Mas como é que vou dizer à avó que se calhar ela já não vai assistir a esse momento.
A minha avó está de partida e eu não vou ter tempo de lhe mostrar que não falhei em tudo na vida.

Aproximou-se com um sorriso rasgado e apresentou-se com um dos elementos da paróquia do Campo Grande.
A miúda que vinha com ele ficava sempre mais atrás envergonhada.
Começámos a andar porque achei que eram escuteiros e queriam pedir ajuda para alguma coisa.
"Estamos a oferecer abraços e cumprimentos e damos rebuçados a quem quiser".
Parei e adorei o que ouvi.
Dei um abraço a ambos e emocionei-me imenso.
Acho que a minha mãe também.
Já no supermercado a mãe disse-me que encontrou um estranho no autocarro que lhe deu um olho gordo e disse: "guarde na carteira para a proteger".
Passamos a vida a fugir das pessoas porque geralmente sabemos que não só não nos querem dar nada, como nos querem magoar, ou pedir algo.
E de repente alguém cruza o meu caminho só para me dar um abraço.
Sem mágoas, nem más consequências. Só por amor ao próximo.
E foi tão bom.
Foi tão sentir-me abraçada.

Novembro 08, 2014


O melhor de chegar o frio...

 é acordar debaixo de um delicioso edredon e esticar-me na cama toda só para mim.
E pensar que Dezembro é o mês perfeito para ir até Paris...

Novembro 05, 2014


Não tem mal.
O passado já foi lá atrás.
Já partiu.
Não o viste a ir?
Não tem mal.
Já foi.
Não é mais nosso.
Acabou sem sabermos porquê...
Não tem mal.
A vida é mesmo assim...

Juntamo-nos no fim do trabalho às escondidas num bar perdido no centro da cidade.
Os bancos são corridos e de madeira.
Encostamo-nos umas às outras embrulhamo-nos em mantas polares enquanto o frio se vai entranhando na pele,
A cidade ficou esquecida lá fora.
Pedimos gin tónico como se bebêssemos água e soltamos conversas num desespero de quem não tem tempo e algo fica sempre esquecido ou por dizer.
Umas têm os maridos a dar banho aos filhos enquanto não chegam para jantar e outras não têm ninguém à espera.
Bebemos e rimos e fazemos brindes.
O mundo parou-nos nas mãos.
Sinto-me chegada a um lugar qualquer em paz.
Nada me espera.
Não há ninguém.
Não vai haver tão depressa a não ser que o mundo me surpreenda.
Mas eu estou em paz assim.
Posso ficar ali a noite toda ou sair para me encontrar num jantar a dois. A mil.
Posso tudo nesta fase da vida.
E apesar de não ter nada, pela primeira vez sinto que vivo bem no meu lugar, sozinha no mundo. Mas tão perto de mim.
Estou sozinha porque fiz escolhas e fechei portas e vivo com isso. Mas estou bem como sou.
Rimos e fazemos brindes.
Ensinam-me técnicas para um jantar brilhante no dia em que queira impressionar alguém.
Registo tudo a sorrir, sem a aflição de não ter mais do que aquilo que sou.
Somos várias mulheres.
Temos vidas muito diferentes e complicadas.
Mas hoje sou feliz por ser só eu.
Dona do meu destino e da minha história de vida. Da minha vontade.
Não há nada à minha espera a não ser o silêncio da casa e o que vem de mim.
Um dia talvez passe e voltem a resgatar-me a gargalhada e o sorriso e a alma.
Mas hoje sei que não sou parte de ninguém, ninguém se orgulha de mim ou me exibe como mulher. e eu já não preciso mais disso. Acabou-se o tempo.
Ninguém me recorda à distância ou me ama em silêncio.
Hoje sou apenas eu por mim.
Na minha conta de que me basto.
Porque a vida já me ensinou que não preciso de ninguém para ser feliz.
Para me encontrar com 6 amigas num bar...
E beber gin tónico e brindar à vida.
A minha vida que seguiu só comigo.
Sem poder contar contar com homem algum.
E não é que eu sou feliz assim?
Talvez seja sinal que algo está então prestes a começar entre mim mesma.


Novembro 04, 2014



Nunca tive medo dos outros para nada.
Nunca tive medo de perder tudo e ter de reconstruir a vida do zero.
Nunca gostei de ser provocada, nem coagida a ir por um caminho que não quero porque nessas alturas vou contra tudo de frente.
Temo sempre pelos outros quando acham que através da coação me levam a algum lado.
E temo mais pelos que acham que eu tenho de ter mais medo de viver, baixando a cabeça a deus ou ao diabo.
Tenho medo pelos que temem a vida e dos que têm pouca coragem.
Tenho medo que o mundo nunca avance porque continuamos todos a viver com uma mentalidade machista e de subjugação.
O meu pai sempre me defendeu quando sentia quem me punham em perigo, não por temer os outros fisicamente, mas por achar que me abalavam o carácter.
Mas foi com o pai que ficou claro que ou se tem coluna vertebral, ou não.
Eu tenho coluna e não tenho medo disso.
E quando a temos, estamos a dispostos a  esfregar-nos no chão e a rasgar a pele, caímos e erguemos as vezes que nos forem exigidas. Mas a dignidade não está à venda, nem é cotada pela bolsa.
A dignidade, a coluna, é uma coisa dos espartanos que mesmo sabendo que vão morrer, não vergam ao medo dos que se apresentam sempre mais numerosos e com mais poder.
Os espartanos dão o corpo à dor e arrancam  dor aos outros se for preciso, mas não encolhem a cabeça com medo de não sustentar a coluna.
Dizem que os espartanos já morreram todos, eu acho que há uns muito poucos que sobrevivem na nossa alma, quando erguemos a coluna e deixamos que medo algum nos vergue.
Eu carrego na alma a dignidade de um espartano e coitado daquele que não perceba que sou brava mesmo se for para morrer de pé.

Novembro 02, 2014


Liguei-lhe porque há dias em que preciso de colo de todos os que sei que me amam.
"Querida, a orquídea que nos deu voltou a dar flor".
Fiquei espantada porque eu mato sempre as orquídeas todas e desisto rapidamente delas.
Acrescentou: "Falo com ela de manhã e digo bom dia. Dou-lhe atenção. Afinal ela é um ser vivo".
O meu tio Fernando que só existe na minha vida por afeto e não por ser família real, é das pessoas mais incríveis que conheci.
Porque ama tudo o que tem vida e abraça as árvores e cuida com a amor dos animais e da natureza.
E trata da minha planta porque é o modo dele me dizer que também me ama lá à maneira dele.
E eu gosto de ser amada, como uma planta que dá flor se for olhada todos os dias.

Novembro 01, 2014


Ontem enquanto simulávamos passos de boxe e ríamos às gargalhadas percebi que é o desporto mais sofrido e digno.
Porque passamos minutos de agonia a apanhar, encolhidos numa posição de defesa e contamos os segundos para que acabe.
Mas nesse momento em que a dor nos enraivece como um touro ferido, vamos também buscar aquele impulso que falta para dar um golpe final de ataque.
O boxe é a metáfora da nossa vida.
Onde a sabedoria de suportar a dor se transforma em habilidade para saber lutar a seguir.