
Vi-o da varanda, num sábado à tarde já o frio entrava pelas portadas de madeira, vinha ainda ao fundo da minha rua, trazia um casaco comprido preto e os óculos a tapar-lhe as expressões mais bonitas do olhar.
Tocou à porta e estremeci quando o ouvi subir as escadas.
Falámos como dois estranhos que resolveram qualquer coisa em comum e não sabem ainda o quê.
Saímos porque a casa era ainda um desconforto para ambos, uma intimidade ainda não procurada.
Sentámo-nos frente a frente, numa casa de chá, com painéis chineses e candeeiros de veludo, um scone com pétalas de rosa secas e aromas e infusões diferentes e de sabores ácidos.
A tarde caiu e não dei por ela. Saiu antes de mim com um "até já".
Dele fiquei a saber que gostava de açorda de coentros...
Vi-o de novo, nesse sábado, já vestido na pele de um, até então estranho para mim Luiz Pacheco, despido de qualquer roupa, vestido de um alguém que não era apenas uma personagem, era também um pouco dele.
Acabou a primeira peça que vi com ele.
Saí.
As poucas horas que nos separaram, passaram.
Vi-o de novo nesse sábado, já o dia passava para domingo.
Um brinde. Um profundo olhar.
Um beijo. Outro. Outro e tantos.
Não sei a razão de o ter ido ver àquela que seria a primeira de muitas peças, não sei a razão, mas apaixonei-me no momento em que o vi, a ele, sem personagens, ou papéis, ou trabalhos comuns.
Vi-o. Senti-o. Vivi-o. Perdi-o. Perdi-me.
Regressámos com um passado nosso e com um travo da açorda de coentros nos olhos e num paladar que nos é comum. Regressámos com ciladas e invejas e más explicações e uma paixão que o tempo nem ninguém roubou.
Vi-o de novo e perdi-me nele.
Vi-o, num sábado de manhã, ainda mal acordado diante de mim, despido do mundo, vestiu-se então de mim.
Não sei ao certo porque o quis na minha vida, não sei ao certo o momento exacto em que me apaixonei por ele, sei que aconteceu sem planear ou procurar, aconteceu porque tínhamos de nos encontrar...
Encontro-o sempre desde há um ano.
Encontro-o nas palavras de um texto de uma Velha Casa, nas receitas antigas das açordas de coentros, no mesmo olhar que tem hoje. encontro-o nos objectos que deixa pela casa, no cheiro da roupa que dobro, encontro-o quando o deixo de carro à porta do teatro, encontro-o quando estendo a mão à noite e dorme ali ao lado.
Encontro o João em mim todos os dias desde há um ano.