dezembro 11, 2014


Quando não queremos despedir-nos nunca de uma pessoa...
Somos maus por isso?

Encontrei o pai meses depois.
Esperava por mim na esquina da minha rua de mãos geladas e os olhos embargados.
Dei-me um beijo como se o tivesse visto ontem e não há seis meses.
Atualizei os meus dias e a minha vida e sabemos ambos que perdemos o rasto um do outro.
O pai está diferente, com menos sangue quente e mais contemplativo.
Eu tornei-me mais independente de tanto esperar que ele viesse.
Já não me lembrava dos traços todos que o definem...
O tempo estraga-nos tudo...
Não convidei o pai para conhecer a minha casa porque não consegui.
Despedi-me a combinar um próximo encontro.
Subi as escadas a correr e explodi porque apesar de ter 35 anos continuo a sentir-me uma criança pequenina que é deixada à porta de casa.

dezembro 10, 2014

inverno


As luzes estão ligadas lá dentro quando passo rápido pela rua.
 Uma nova vida e uma nova história começou ali naquele lugar que não é meu, como se me tivesse sido roubado algo e transportado para aquela janela que vejo ao longe.
Passo leve e rápido na rua que não é minha como se os bairros tivessem assinaturas de grupos ou fossem pessoais.
Se aquela rua fosse minha...
Se as luzes me dessem mais calor e conforto, o que não faria...
Sigo para diante porque quero chegar a casa e lá fico como se chegasse a uma meta.
Mas a minha meta está perdida pelo meio do caminho.
É que de tanto esperar não sei já o que procuro e por isso as luzes dos prédios dos bairros dos outros confundem-me o olhar como se já não soubesse bem de onde sou...
As luzes do bairro dos outros são mais quentes que as minhas.

Expiação




 Enquanto viajo de regresso a casa, depois de dias loucos de trabalho, vou pensando...

dezembro 08, 2014


Chego a esta casa e ela está fria demais para ser minha.
Se pudesse pintava-a toda de novo e mudava-a por dentro, ou mudava-me eu dela.
É estranha quando cá entro e não me fez sentir bem.
Como se tivessemos chegado a um fim de ciclo.
Não ligo a televisão porque quero entender de onde me vem este silêncio tão incómodo.
Eu mudei e ela está igual. É normal...
Os tecidos estão gelados e parecem-me húmidos demais para sentir conforto.
A cama não aquece comigo lá dentro.
Nem a cor das paredes me dá o conforto de quem procura uma resposta qualquer.
A minha casa está triste por dentro porque eu a abandonei de alguma forma.
Deixaram de aparecer os amigos para jantar.
E o quarto de vestir nunca chegou a ser um quarto de bebé. Guarda apenas um vestido de casamento que nunca quis lavar para me lembrar de tudo o que passei.
À minha casa não chega mais ninguém a correr pelas escadas acima, onde só pára no meu abraço.
A minha casa está demasiado fria...
Como se já não pertencessemos à história uma da outra.
A minha casa está fria porque eu também estou... porque me lembra todos os dias das coisas que quero esquecer.


A vida acontece como um rio que segue um percurso, quer o Homem queira, quer não.
A vida tem um rumo cuja vontade não nos é perguntada.
Às vezes chegamos a tempo, outras vezes não.
Às vezes realizamos os sonhos que guardamos escondidos como o nosso último reduto de esperança.
Outras vezes não.
A nossa vida acontece de uma maneira qualquer que não está nas nossas mãos, está num percurso traçado como o rio que não controlamos.
É tudo uma questão de tempo.
É tudo uma questão de acontecer, ou de já ser tarde demais.
Ou de aparecer no tempo exato e de agarrarmos como oportunidade nossa.
A minha vida será aquilo que tiver de ser.


dezembro 02, 2014


Chego a casa sempre tarde.
Procuro no fundo do congelador um resto de uma refeição já perdida há meses enquanto me descalço e atiro as peças de roupa com vontade de encontrar conforto.
Os dias são longos com trabalho e decisões.
Ninguém com quem partilhar as dores de cabeça, as alegrias, ou os meus pensamentos agitados de quem não pára.
Ligo sempre no mesmo canal de notícias, seja a que horas for. É quem me acompanha.
Já falei ao telefone com a mãe e troquei os últimos mails de trabalho.
Embrulhada numa manta no sofá, revejo a agenda para os próximos dias.
Festas de natal, jantares e um de gala onde tenho de ir sozinha.
Passo uma revisão rápida pelas opções de roupa e os sapatos de salto de alto.
A vida passou a ser dedicada ao trabalho, às reuniões, às agendas entre empresas e aos compromissos de protocolo.
Estou bem por minha conta, claro que é bom.
Saber que tenho o mundo um bocadinho nas minhas mãos é tentador, talvez viciante.
Mas porque é que sinto um vazio fininho, agudo e tão silencioso?


Começamos sempre tudo com imenso fôlego e temos pressa de chegar.
Pressa de ter metas e de as alcançar.
Temos pressa de viver e de realizar todos os desejos porque são eles que nos dão impulso.
Depois levamos murros de realidade.
Murros de espera e agonia.
O tempo passa e consome-se a si próprio.
Esperneamos e chamamos a atenção.
Gritamos para que não desistam e reparem em nós e nas nossas necessidades.
às vezes até nos ouvem, como num túnel ao fundo, mas nunca reagem no tempo que avisamos ser o real.
E o relógio passa e vai-nos corrompendo a alma e os sonhos e a vontade.
Deixamos de chamar a atenção.
Deixamos de ser tudo porque a espera e a desilusão nos matou.
Só quando deixamos de reparar se o tempo passa ou não.
Só quando deixamos de correr com pressa é que alguém se lembra que afinal gostaria de ter lutado por nós.
Ora bolas...

novembro 28, 2014


Não ouço a conversa da minha mesa porque me foco numa família à minha frente.
Os pais. E uma menina de aproximadamente 8 anos que joga no ipad enquanto os pais conversam.
Quando volto a olhar para ela já ela adormeceu, caída, redonda no sofá do restaurante.
Os pais acabam de jantar e a mãe veste-lhe o casaco delicadamente, enquanto lhe dá beijinhos na cabeça e lhe fala ao ouvido.
O pai observa-as enquanto espera pela sua vez.
Então ela estende os braços no ar e diz "pai".
E o pai carrega-a num abraço delicioso de amor e proteção.
E eu acabo a chorar porque me enternecem os laços de amor dos outros.
E lembro-me que não sei o que é ser pegada ao colo.
E lembro-me que em pequenina, a sair de um bloco operatório, depois de uma anestesia geral, estendi os meus braços pequeninos a pedir colo ao pai e ele obrigou-me a ir a pé.
E eu fui. A chorar com medo e dor e frustração. Pelo meu pé.
O meu pai achava que isso me fazia mais forte. E esqueceu-se que eu só precisava de amor para ser forte.
E hoje adulta, preciso que alguém às vezes me carregue ao colo e suporte as minhas fraquezas.
Mas cresci à força e tornei-me dura demais, como um soldado infeliz ao frio e à chuva, mas que aguenta estoicamente a vida porque ela parece que é só para ser amarga.
O meu pai seria incapaz de me dar colo. A vida foi incapaz de me dar colo. E as pessoas que ainda assim resolvi amar, acharam que já era tarde demais para me dar colo...
Que assim seja. Irei, como sempre, pelo meu pé.
Já dói muito menos...

novembro 27, 2014



O frio entrou por esta casa.
As paredes ficaram geladas e a madeira das janelas inchou com a chuva.
Está tudo em silêncio.
A cama está vazia e eu encaixo-me a um canto a tentar aquecer.
Não há ninguém a ler-me histórias à noite.
Não tenho a quem contar o meu dia.
Não veio ninguém para jantar.
Não há calor aqui.
O frio entranha-se na pele e dói por dentro.
O meu inverno instalou-se.
Veio para ficar.

Os grandes amores começam sempre às escondidas.
Porque surgem de repente quando a vida ainda está por resolver.
São aqueles que não planeamos e nos assaltam num primeiro jantar onde achamos que íamos só falar de trabalho.
São quase sempre amores proibidos e impossíveis.
Marcados à pressa contra todos e debaixo do olhar reprovador das aparências morais.
Os grandes amores deixam uma marca igual à de uma cicatriz. que dói nos dias de frio e de mudança,
Chegam e achamos que é para sempre porque nos fazem doer as entranhas e nos tiram o sono e o apetite.
Eu conheci um grande amor a quem dei tudo o que tinha de melhor.
E criei as maiores expetativas porque o meu amor também era maior.
Escolhemos uma casa e fizemos planos para ser uma família.
Mas o meu grande amor não sentia o mesmo por mim e deixou que o capricho de terceiros decidisse o nosso rumo.
Os grandes amores começam às escondidas porque se calhar não deviam acontecer.
Têm o destino traçado para falhar porque não lhes chega a vontade para vencer.
Porque são de uma família só e não deixam mais ninguém tomar esse lugar.
Os grandes amores têm todos passado e filhos e vida.
Eu escolhi sempre mal os meus amores, porque eles nunca me escolheram a mim,
E eu quero chegar em primeiro lugar.
Eu quero ser encontrada sem ser às escondidas como o grande amor de alguém.


novembro 25, 2014

"Basta que me batas uma vez"

Como milhares de mulheres eu também já fui mal tratada.
Como tantas também já sofri ameaças e um profundo terror psicológico.
E nesses casos, tempo algum apaga as marcas que foram deixadas.
Como muitas mulheres, eu já tive medo e sofri calada a pensar nas consequências e nos danos.
Como qualquer pessoa fisicamente mais fraca já tive de ser a mais forte.
Como qualquer pessoa mal tratada aprendi a ser mais agressiva se preciso for para me defender.
25 de Novembro. No dia em que prestamos apoio a todas as vítimas de violência doméstica é importante dizer que há coisas que basta que nos façam uma vez, para que nunca mais voltem a acontecer.

Separamo-nos quando achamos que fomos desvalorizados.
Quando achamos que nos passaram para segundo plano.
Separamo-nos quando achamos que merecemos melhor, mesmo que o preço a pagar seja ficarrmos à espera eternamente sós.
Quando achamos que a tristeza é maior que a tolerância para saber levar.
E quando os de fora dominam a vida que deveria ser apenas propriedade de dois.
Separamo-nos quando temos carácter e coluna.
Quando temos personalidade e vontade própria e não vivemos na sombra e das sobras de um qualquer alguém.

novembro 20, 2014


Nunca quis ser uma mulher de carreira.
Nunca fui ambiciosa desmedidamente.
Em nada.
Mas o poder e a inteligência sempre me causaram algum fascínio, para aqueles que usam bem estes atributos.
A minha vida passa a voar entre reuniões e influências e jogos de poder.
Hoje vi-me de fora no meio de uma reunião e nunca tinha percebido bem até onde já tinha chegado.
E concluo que a única coisa que nada ambicionei, foi para já a única que foi bem sucedida.
Não deixa de ser estranho...
Não deixa de ser desafiante.

novembro 19, 2014


As crianças podem pedir afeto e colo e ninguém as censura.
Podem ser o centro das atenções de todos e podem pedir mimo extra como se nunca nada chegasse.
É como se tivessem um direito divino a ter prioridade máxima para tudo.
Às vezes queria ser pequena de novo para ter o privilégio de ter tudo isso.
Sem ninguém para me criticar porque o afeto já não se pede.
Eu queria ser pequena para receber amor em dose gigante e não sair magoada.
E ter a prioridade de ser amada por alguém sem dúvidas nem hesitações. Sem competir, sem disputar nada.
Mas esse tempo passou.
E no tempo que foi meu não consegui ter tempo para tudo.
Eu queria poder pedir afeto e colo e não ser julgada por isso.
Porque eu só sou feliz e movo-me se me sentir amada.

novembro 17, 2014


" As semanas passam umas atrás das outras e mantens esse olhar triste. Às vezes olho para ti no trabalho e mesmo com mais gente tens uma tristeza profunda, interior"".
Fiquei com vontade de chorar mas contive-me e disse que era feliz.
Mas não sou boa a mentir.
O olhar trai-me a palavra que acho que ainda é o que comando.
Tento procurar pontos de fuga mas os olhos inundam-se como uma comporta que rebentou.
Cá dentro mora uma dor tão aguda quanto fina e isso vê-se no olhar e na pele que perdeu brilho.
Eu perdi-me.
Entre o passado que perdi o controlo e a falta de perspetiva que tenho hoje.
Perdi tudo.
Não consigo articular uma palavra certa. Não tenho nada para dizer.
Subo calada no elevador e ao chegar à sala pergunto então se me pode dar o nome da tal clínica onde podemos ser mães sozinhas. Só por nossa conta, sem pais. Ou com pais sem rosto.
"Claro que sim. Eu dou-te. Não é o fim do mundo".
Claro que não.
É só outro começo que nunca quis para mim.

novembro 16, 2014


Quebrei por dentro.
Acordo sem alma e sigo os dias sem vontade de me suster.
Parece que passou um furacão pela minha vida inteira e deixou tudo fora do lugar, em cacos.
Os dias seguem-se uns atrás dos outros sem sentido.
Não tenho vontade de começar nada. Nem o dia. Nem eu de novo.
Corri demais, tentei demais. Fiz coisas a mais e esgotei-me.
Eu esgotei-me.
E perdi a vontade de voltar a viver tudo do zero.
Amanhã é mais um dia só mais um sem me trazer nada de novo.
E a seguir, segue-se o mesmo silêncio sem respostas a nada.
São dias atrás dos outros que odeio. Sem nexo.
Não vem nada. Não há respostas aqui dentro.
Eu quebrei.
E a alma caiu-me aos pés e teima em não mais se levantar.

novembro 14, 2014

Não tenho idade para ter anjos da guarda nem amigos protectores.
Tenho toda a idade que legitima a minha vontade de querer ter um namorado, alguém real ao meu lado.
O tempo de espera acabou.
E as ilusões e as expetactivas ficam para os contos de fadas dos outros,
A minha vida é bem real.
E está toda aqui ao lado.
Basta abrir a porta.
E ela entrará toda por inteiro.
Basta eu querer.
E eu quero.
Cansei-me de esperar pelo que nunca chegou.

Chove demasiado e o tempo abana as estruturas.
Comecei a manhã nas escadas do prédio ao telefone a chorar que nem uma criança a pensar que não sou feliz e que tenho de mudar algo.
Fugi da minha equipa inteira porque não lhes posso mostrar que sou humana e frágil.
Mas sou e acordei com a ideia clara que não sou feliz.
Não sou feliz há tempo demais e já chega.
O dia corre devagar como a minha cabeça e o meu humor.
Engulo o mau humor e as lágrimas à medida que o tempo passa.
Passo o dia a comportar-me como uma máquina sem sentimentos e sem alma. 
A tarde cai e a chuva não pára.
Fechamos todos os computadores e marcamos encontro num bar perto.
Vamos chegando à medida que encerramos mails urgentes.
Pedem-se todos os tipos de Gin e vamos-nos sentando.
O bar enche connosco.
Ficamos uma hora.
E outra.
Passam horas e o dono do bar acaba sentado connosco.
Os copos seguem-se  uns atrás dos outros e começo a rir.
De repente começo a achar graça à minha vida, à vida dos outros.
Sinto que preciso de beber para me rir.
As mesas cruzam-se e cruzam-se contactos.
Somos tantos e tantos sozinhos.
Perco a noção do tempo.
E já nada me preocupa,
Não devo nada a ninguém.
Ninguém mais me espera.
Estou por minha conta...
Volto ao carro já a noite começou e vou a rir sozinha à chuva sem medo do vazio.
Comecei a manhã a chorar.
E hoje ao fim do dia percebi que sou feliz só comigo e  que estou completamente disponível para recomeçar tudo.
Ou viver tudo do zero.
Ou recomeçar o que ficou a meio.
Estou por minha conta e sei que me hei-de apaixonar por mim.
Pela vida que me espera,
Mas sei que me espera algo porque há vida demais em mim para que se acabe tudo já assim tão depressa.

novembro 13, 2014

auto-retrato



Para sempre é sempre por um triz.