Novembro 09, 2009

Perdida nos sentidos


Acaba de secar.

Apanho-a.

Usei o mesmo amaciador que uso na minha roupa.

Encosto-a a mim e é o teu cheiro.

És tu, entranhado nos meus sentidos.

Novembro 06, 2009

Fernando Nobre

Conheci-o porque foi convidado num dos meus programas.
Estava parado a observar tudo, com um ar de calma de quem já provou tudo à vida.
Aproximei-me, com medo que a minha ignorância sobre o Fernando Nobre me deixasse ficar mal vista, mas havia qualquer coisa que me fascinava no seu percurso enquanto médico humanitário da AMI.
Tinha um olhar sereno, de quem tem tantas vidas para contar e já vividas, de quem não cobra mais nada porque chegou a um acordo de paz dentro de si próprio.
Não me deslumbro por nomes sonantes, nem por carreiras, mas pela vida que um olhar transporta e aquele olhar era um mundo novo para mim.
- Consegue lembrar-se de crianças em concreto que viu morrer? - perguntei, como se fosse eu uma criança que vê um filme e deixa cair o queixo de espanto.
Sorriu e os olhos encheram-se de ternura. Abriu então um livro de fotografias que tirou durante as missões e apontou para esta fotografia e disse o nome de uma menina...Não o percebi, apenas que era uma rapariga com 13 anos.
- Esta menina morreu, chegou a mim tarde demais. Morreu. Lembro-me muito bem das crianças que perdi. Elas acompanham-me todos os dias.
Perguntei como é que nunca se desiste, mesmo quando se perde uma vida nas mãos e explicou-me que ninguém substitui Deus.
Bolas, eu e a minha arrogância de achar que temos poder para decidir vidas, destinos.
Sorriu. Arrepiou-se. Comoveu-se enquanto recordou as crianças que salvou e perdeu. Como se a saudade o habitasse, como se estivesse a rever a coragem de pessoas que partiram no meio de um profundo sofrimento, sem nada, talvez só com ele ao lado.
- Nunca cruzou os braços e perdeu a força para continuar? - perguntei com vontade de lhe pedir que me deixasse ir para lá...
- Não. Basta salvar uma vida para tudo valer a pena.
Há dias em que acho que experimentamos o divino.
Isso acontece quando nos emocionamos numa conversa, quando simplificamos a vida e a celebramos com um brilho no olhar, um brilho de dever cumprido e de sabedoria de que não somos nada e nos assumimos como meros aprendizes da vida.
Experimentei qualquer coisa de divino quando conheci o Fernando Nobre, ontem, quase por mero acaso, num dia de trabalho, como outro qualquer...

Novembro 04, 2009


Meu amor, meu amor
Meu corpo em movimento
Minha voz à procura
do seu próprio lamento

Meu limão de amargura, meu punhal a escrever
Nós parámos o tempo, não sabemos morrer
E nascemos nascemos
do nosso entristecer

Meu amor, meu amor
Meu nó e sofrimento
Minha mó de ternura
Minha nau de tormento

Este mar não tem cura, este céu não tem ar
Nós parámos o vento, não sabemos nadar
E morremos, morremos
Devagar. Devagar

P.S - Amo.te


- Olha lá Joana, o que fazes no trabalhos a estas horas? Sabes que há vida lá fora?

- Sei, estou a fazer tempo para ir ter com ela...
Almoçamos todas as semanas, há alguns anos, eu e o pai vamos sempre ao mesmo lugar.
No restaurante está sempre o mesmo senhor.
Dele só sabia que tinha um António, com quem metia conversa de vez em quando, sem direito a troco na resposta.
Gosto do ritual de me sentar e ele já sabe o que trazer, sabe que só quero meias-doses e que não gosto de açúcar no café, apesar de querer sempre a colher para misturar a espuma.
Não trocamos muitas palavras, até porque o pai é de poucas conversas com as pessoas em geral.
Hoje, talvez por nos ouvir a falar da minha mana, parou diante da mesa e perdeu-se a falar:
“Ele já sabe quase ler, já sabe juntar as letras. Está na 1ª classe, entrou agora em Setembro e adora ir para a escola. Não chorou nada, vai sempre todo contente”.
Sorrimos e falámos todos das férias das crianças e que gostaríamos que fossem também as férias dos adultos. Sim, conversa de circunstância de quem não sabe o que dizer.
Retomou de repente e sem esperarmos:“O António parece uma carraça, mal me vê, agarra-se a mim e não me larga. Até à noite tem de estar colado a mim e se adormece longe, lá vem ele, com os pezitos pelo chão suavemente e vem enfiar-se na minha cama. Às vezes vai dormir aos avós, mas quando acorda eu tenho de estar lá ao lado. E estou sempre. Deve ser mau para ele esta dependência de mim, mas ele está comigo desde os dois anos e está comigo para tudo, para acordar, para ir à escola, tomar banho, jogar à bola nos fins-de-semana… Oh, para tudo!”.
Interrompo e inevitavelmente pergunto pela mãe do António.
“De vez em quando vem almoçar com ele”…
Os olhos ficam parados em nós, como se esperasse uma solução nossa.
Arrependo-me de me intrometer com perguntas a mais, mas percebo que, sem saber o porquê, aquele senhor cujo nome não sei, hoje precisou de falar do seu filhote de 6 anos.
Comento que quando um falha, é o filho que fica com deficiências de afectos, mas que a vida é assim mesmo.
A resposta serviu e ele afastou-se, na verdade não quero ficar a pensar no António, mas já é tarde…
O meu pai não volta a falar.
Traz-me ao trabalho, como se me levasse à escola.
Damos sempre um beijinho fugido e voltamos a ver-nos no mesmo dia da próxima semana.
E eu trago o António na cabeça e no coração e penso que não é um menino infeliz só por não ter tudo, tem um pai que o adora e faz dele o seu companheiro para tudo e essa é a forma mais plena do amor.
E penso que às vezes sou um António, outras vezes sinto falta de um.
Mas há coisas na vida que, quando assumimos, têm de ser para sempre e um António é para sempre.

Novembro 03, 2009

O que me sustém?
Tantas coisas boas.
Mas hoje é importante relembrar que todas as manhãs quando saio de casa e me olhas nos olhos dizes "até já".
E voltamos sempre um ao outro.
Porque o tempo é feito por nós.

Adeus.

Parte hoje. Horas, longas horas de avião.
Nunca é certo quando volta.
Nunca é certo se volta.
Não me quis despedir porque não consigo, não gosto, não digo adeus a ninguém, é raro.
Deixo o telefone hoje perdido, propositadamente, perdido pela sala, por todo o lado. Encontro-o já com a chamada não atendida. Olho as horas e penso que já vai a atravessar o atlântico.
Vejo que me deixou uma mensagem de voz. Hesito. Acabo por não querer ouvir naquele instante. Talvez se lhe ligar já não me atenda. Arrisco. E o telefone toca e atende.
Na verdade tinha esperança que não fosse embora.
Acaba a conversa a chorar e diz que não quer ir. A voz fica-me embargada, controlo o choro, quero pedir que não vá, mas não tenho o direito de prender ninguém.
Despeço-me sumidamente.
Fui dura demais, mas hoje o rímel não me mancha a cara.
Ouço finalmente a mensagem de voz. Pede que não desista de lutar pelo que quero e recorda o que passámos nos violentos meses recém-passados, em que foi cuidar de mim.
Travo o choro que se anuncia na garganta, contenho-me. Aperto o nó da garganta. Não me quero lembrar mais do que passei e tenho de parar de ter medo de dizer adeus.
Então adeus.
Pode não voltar mais.

Diálogos perdidos

- Ofereci-me para passar o dia 25 de Dezembro a trabalhar, vou mesmo acabar por estar sozinha no Natal...
Ficamos calados porque as coisas têm pesos diferentes para nós, mas uma coisa é certa, este Natal não fico trancada em casa a homenagear a minha solidão.


- Vais embora este fim-de-semana? - dou eu sempre como certo que vais...
- Não. Acho que vou ter de te aturar - ri-se.
Gosto tanto de ser normal e a normalidade faz-se da rotina e é ela que me dá segurança.
Mesmo que a nossa normalidade seja diferente da vida de todos os outros, gosto!


- Lês-me um bocadinho todos os dias antes de dormir? Seja o que for, mas isso faz-me bem. - pergunto, mas sei que o farás.
- E não queres mais nada? - pergunta bem disposto.
- Quero!
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Outubro 29, 2009

Firestarter


É assim uma espécie de combate, em que passámos o tempo a rodopiar sobre nós próprios, a ver quem fintava primeiro.
Sempre de punhos fechados, para responder com o ataque em auto-defesa.
Sempre a olhar para as minhas costas para não sofrer um golpe inesperado. Os golpes vêm de quem menos esperamos, de quem diz que nos ama e nos acerta em cheio nos rins.
O combate passou a ser agredir antes de ser agredida. Sem avaliar primeiro o que quer que fosse. É o instinto de quem já está ferida e não tem nada a perder.
Ganha-se coragem para sair do combate, porque combater também se torna viciante, parte-se com as feridas todas e as nódoas negras e as feridas que cortaram a carne e as que rasgaram os músculos do coração. Parte-se a arrastar o corpo dorido, magoado e deixam-se marcas de um sangue que é da alma derretida.
Depois de um combate nunca nos podem dizer que nos amam porque o impulso é agredir ainda mais. Como é que se ama com uma agressão?
Continuo a olhar para as minhas costas, à espera da próxima agressão e vou agredir no primeiro sinal de ameaça. Não me tornei irracional, mas estou marcada por dentro, como se me tivessem cravado no peito um ferro a arder.
Liga-me uma amiga a chorar porque o marido quis ir dormir uma noite para casa da mãe, depois de uma saída de amigos. Pois não, não é normal, mas eu não acho nenhum homem sempre normal. De repente ela fica sem mundo porque ele, porventura, pode já não gostar dela. De repente acha que é feia porque um homem não a ama como ela quer. E de repente o mundo dela paralisa porque um homem pode não precisar mais dela.
Ela entrou num centro de combate.
Eu revejo o meu combate.
E passo-me.
Passo-me com a montanha russa dos sentimentos: “olha hoje amo-te, amanhã deixo-te porque me cansas com as tuas inseguranças; olha hoje durmo contigo e toco-te e amanhã traio-te porque não me pesa nada na pele; olha hoje trato-te friamente porque a seguir corres atrás de mim porque tens medo de me perder”.
Olho para trás das costas. De repente sinto-me ameaçada.
É assim uma espécie de combate, todos os dias, em que luto comigo para me respeitar mais do que a qualquer outra pessoa. E se alguém me falhar, que eu nunca me esqueça que sou eu que não posso mais falhar comigo.
E agrido. A quem me magoar de novo. E sempre a mim.

Outubro 27, 2009

Vem sempre às terças.
Hoje tratou só das minhas mãos.
Mistura Rebú com Gabriela, sabe que sou fã da marca Risqué e de vermelhos.
E sou fã da Eni que cuida de mim há anos e me mima e não gosta das minhas inseguranças, nem de quem me faz mal.
Hoje e quase de partida para o Brasil, a última coisa que me disse antes de sair foi deliciosa:

Não preocupa não Joaninha, quem cospe no ar, vai tomar de volta na cara!

Eu diria apenas que cada um colhe aquilo que andou a semear e nem foi preciso estalar-me o verniz.

Outubro 25, 2009

Bolas, lá vou eu de novo!


Mexo nos caixotes e troco a roupa de verão pela de inverno.

Não sei se devo mexer já na roupa, ainda está calor e estamos a entrar em novembro.
Revejo as dezenas de equipamentos de ginástica que tenho guardados, intocáveis.
Amanhã retomo as andanças pelo ginásio e descubro que tenho tudo a condizer, chega a ser piroso.
Não tenho vontade de recomeçar, faz mais de um ano que parei e sempre que retomo é por um desgosto qualquer que me deu cabo do corpo... ou do coração, ou da alma.
Desta vez 7 kilos perdidos, já em franca recuperação, o coração com golpes profundos e pouca vontade de se mover demasiado pelo que seja, já ando a medo, acredito a medo, vivo cheia de medo da próxima paragem, quase enfarte. E é então que o PT resolve dizer que o corpo está demasiado frágil e vulnerável a tudo, sério???!!!!
Pergunta como emagreci a pique. Respondo só: desgosto. Sorri e diz que tenho de provocar o coração e pô-lo a trabalhar no duro.
Apetece-me dizer-lhe que voltei a dar trabalho ao coração e que ele anda a bater demasiado e que dói às vezes, mas tenho de ser eu a entender-me com ele.
Amanhã lá vou para um novo ginásio, porque vivo noutro lugar, porque rompi com qualquer coisa, porque mudei e cada vez que algo me acontece, eu volto sempre ao ginásio.
É por isso que não estou nada feliz em regressar... são os antecedentes tão previsíveis.
Já só quero parar.

Outubro 24, 2009

Reunimos os amigos de sempre, jantamos esta noite.
Do miúdo que corria comigo para apanhar o autocarro da escola, vejo um pai responsável e que impõe regras e disciplina aos seus miúdos.
A amiga pequena que dormia em minha casa e passava fins-de-semana comigo e adormecia vestida com camisolas da minha mãe, está prestes a casar.
E hoje fala-se de casamento. Projecta-se uma estrutura a dois.
Falta um casal, o que acabou de casar e partiu em lua-de-mel.
Passa-se a pente fino o vídeo de um casamento, revê-se o vídeo e passam-se as fotos.
Começo a sentir-me desconfortável com o tema, primeiro pica-me a pele, depois caio em sono e por fim sufoco sem ar.
Tenho de sair dali, quero-lhes o mesmo bem que a mim própria, mas não consigo falar, nem ouvir mais sobre o tema.
Algures no jantar discutimos que o que nos tolda a vida é a personalidade, só.
A vida é um somatório terrível de marcas, vivências e experiências guardadas. Penso. Sinto. Tenho-as.
Os amigos que cresceram comigo estão todos a seguir o mesmo rumo, como aquele que levei sempre para o autocarro da escola, mas eu perdi-me algures e hoje senti que não os conseguia acompanhar mais.

Precisa de levar uma coisa emprestada, é verdade! E eu, orgulhosa da felicidade dela, prometo ir ver do saiote...

Cicatrizes? Quem não as tem?

Cruzam-se os nomes e o corpo


Sei que não somos donos um do outro.
Mas enquanto te amar assim, pertenço-te todos os dias e fotográfo o momento, como se ele me escapasse das mãos, como os segundos escapam às horas...
Não somos mais que duas vidas independentes, distintas, livres, apaixonadas e a viver de impulsos, paixão e saudade, perdidas no desespero do corpo e acordados na manhã, num alarme obrigatório para acordar.
Não sou tua. Não és meu. Não comandamos o coração um do outro, mas andamos lado a lado.
Eu preciso de ti. Não morro por ti.
Mas amo-te e isso torna o meu olhar mais brilhante, a vida mais clara e feliz.
Observo-te e penso que um dia nos podemos perder um do outro. Há sempre um que pode partir, pode não ser sempre o mesmo. Há sempre um que quer ficar mais, nem sempre é o mesmo.
Sei que não somos donos um do outro, mas somos parte um do outro, entre soluços de feitio, dor de personalidade, força de viver e choques de gostos e mundos. No confronto e na discórdia, encaixo-me a seguir melhor em ti, ajustamo-nos como barro, apesar de firme e duro, mas entranhamo-nos.
Não te comando. Não me comandas. Mas a vida empurra-nos um contra o outro, como um choque de corações que têm tanto de loucos, como ingénuos.
Não, não sou tua. Mas pertenço-te enquanto te amar assim.

Paris...

Viajo por tudo e por nada.
Quando ouço uma passagem de um livro, quando atravesso uma avenida e enquanto falam comigo e fico vidrada no olhar, sem ouvir, parto sempre rumo a um destino real ou não.
Lês-me ao acaso qualquer coisa do livro que deixas todos os dias do teu lado da cama - Confissão de Bakunine - algures descreve a sua chegada a Paris e a sua travessia pelos jardins do Luxemburgo...
De repente não sei se deixo de ouvir as palavras certas que lês, mas ouço Paris e o barulho dos jardins, dos carros que param em filas intermináveis nas estradas circundantes; sinto o frio do jardim a entranhar-se em mim e já não estou ao teu lado, parti para Paris sozinha, como se alguma força me sugasse todos os invernos de lá... é estranho...
Volto a rever Paris das cores das montras de chocolates e dos esculpidos petit gateau, Paris dos bairros típicos e dos contrastes entre o sujo da Pigalle e a nobreza da Place des Voges, a cidade da Luz à noite e de dia, Paris das especiarias e dos chás de sabores raros, do cacau quente e do café com travo a laranja, a cidade da cultura e da arte, do requinte entre o Louvre e os quadros pintados nas praças chuvosas de Montmartre. Paris das latinhas de fois, dos jardins de Rodin, Paris com salpicos de Sena e pintado a ouro pelas ruas.

ACORDO. Toca o telefone.

Acabou a viagem.

Volto aqui. Acho que ja não lês quando acordo.

De um alto vôo aterro em queda livre e choro.

Tenho sempre de voltar lá... não sei porquê...

Paris? Já fui de lá.

Outubro 23, 2009

Até se apagar o corpo

Chego já no fim do jantar de aniversário do meu avô.
Atrasei-me, mas não esperava ver os talheres sujos, usados, arrumados no prato como quem encerra um momento.
Entrei acelerada, o meu ritmo era ainda o de quem trabalha descompassadamente de manhã à noite.
Antes do prato pedi vinho. Abrandei a voz, o ritmo, o coração.
Perdi a vontade de jantar quando percebi que não tinham esperado por mim, fui a correr... atrasada... Atrasei-me. Mas fui.
"Nós jantamos sempre às 20H" - diz tudo em tom doce.
O avô chegou sempre a casa à mesma hora, durante anos e ninguém jantava atrasado, nem mais tarde, nem mais cedo, todas as noites às 20h jantávamos todos à mesa, sempre a mesma hora, as mesmas rotinas, anos e anos e tantos anos.
O avô nunca entrou em casa acelerado, nunca chegou stressado, nunca foi interrompido, ao longo de um jantar inteiro, por telefonemas de trabalho. Sempre respeitou que o jantar é à hora certa e em família, mas se eu quiser imitar o avô e apesar de ser o seu dia de anos, tenho de mudar de emprego, de cidade, de vida, de coração.
Talvez recuar anos. A vida não é mais igual, nem o coração é da mesma matéria. Já não é.
Ainda me desculpo e digo que ninguém janta às 20H hoje em dia, não por capricho, mas porque o tempo mudou, como a nossa moeda, como o mercado.
De repente percebo que em 30 mts jantei, falei à pressa e foi tudo a correr, porque as horas de jantar também são cronometradas, mesmo que a seguir só se queira regressar para ver as novelas todas da TVI.
Sou demasiado diferente: para mim não há horas certas para nada porque a prioridade é o trabalho se quero receber ao fim do mês, não há televisão que me faça jantar em silêncio e ignorar quem está à mesa, não há horas marcadas para comemorar os teus 82 anos, porque a vida não nos dá prazos sobre a nossa existência, corre e temos de a saber saborear, mesmo que o relógio passe das 20h.
Não temos o mesmo ritmo cardíaco, não andamos no mesmo compasso, nem a vida nos exige o mesmo, já cumpriste o teu papel, eu tenho um esboço ainda do que quero cumprir.
Falhei nas horas, mas achei que esperavas por mim sem os talheres já arrumados.
Para o ano pode já não existir... Talvez até primeiro para mim...
E a vida vale muito mais do que uma hora marcada para os afectos.

Fui ver uma peça de teatro, sobre o corpo e as relações humanas e talvez mesmo que já não entendesses, espelha o HOJE que somos...
E QUANDO O CORPO SE APAGA, O QUE RESTA?

Outubro 22, 2009

A voar


- Queria ir contigo a Barcelona. Sei lá queria mostrar-te tanto do meu mundo...

- Mas eu não vou viajar em breve.

- Pois não, mas eu só estava a dizer o que gostava de fazer...


Metade do meu mundo ainda não te mostrei e as fotos não passam nada do que sente o coração quando parto daqui...

Outubro 21, 2009


Nem que corte os cantos da boca, nunca mais deixarei de rir.


Outubro 20, 2009


As estantes do corredor de casa ainda não estão cheias de livros.

Talvez não as preencha nunca.

Outubro 14, 2009

Mulheres à beira de um ataque de nervos


Querida, toma prozac e acalma-te, senão acalmo-te eu à força.

Outubro 11, 2009

Veste o teu melhor vestido.
Escolhe os segundos sapatos que vão ser aqueles que te vão descansar no começo da noite.
Guarda um bouquet só para ti, não o atires ao ar.
Não tentes decorar tudo o que vais ter de dizer ou sairá tudo mal.
Não te preocupes demasiado se dás atenção aos outros e se és a melhor anfitriã, diverte-te, o dia não é nosso, é teu.
Arrasta o vestido e suja-o, não o limpes, são as nódoas que te contarão a história desse dia.
Se romperes as meias não te importes, tira-as.
Se te enganares, repete até te sentires segura nas palavras.
Passa a noite a olhar para a tua mão esquerda e sente-a junto ao coração.
Sente os arrepios no pescoço e lembra-te que tens convidados muito especiais noutra esfera.
Não precisas de casaco, nunca se tem frio nessa noite.
Faz o brinde à tua nova vida e dá um gole do tamanho do espaço que tens na boca.
Veste o teu melhor vestido.
Será o dia do teu casamento e eu não tive tempo contigo para nada...