setembro 28, 2016


Começo a tentar recomeçar a ser quem era antes da Maria do Carmo aparecer na minha vida.
Dois dias de corrida.
O coração explode de dor.
E os ouvidos ficam com um zumbido ensurdecedor.
No sprint final o meu pé leva um esticão e não poisa mais no chão.
Massagens, gelo, voltaren, mais gelo e a dor trava-se o calcanhar como se tivesse de reaprender a andar.
Mais de um mês a andar pela metade e a carregar a Maria do Carmo ao colo e a pensar que estou presa dentro do meu próprio corpo.
Parece que desaprendi tudo.
Como a Maria do Carmo, nasci agora e terei de aprender tudo com uma tábua rasa.
Antes de começar a correr, tenho de reaprender o que é o meu andar.

setembro 07, 2016


Às vezes fico mais ao longe a ver-te em silêncio.
Sou o teu anjo da guarda nesta vida.
Vejo-te a dormir profundamente e inspiro o teu cheirinho para te levar sempre nos meus sentidos.
Sopro ao teu ouvido que te adoro, mas não sei se algum dia me ouves.
Apertas-me com a tua mãozinha tão pequenina, como se a vida pulsasse toda naquele teu toque.
E eu sinto que estamos ligadas para sempre.
Protejo-te enquanto dormes.
E protejo os teus dias. Dia e noite.
Saberás algum dia o quanto te amo?
Minha doce Maria do Carmo.

julho 10, 2016



De tudo o que fiz por amor.
De tudo o que vivi.
De tudo o que passei por acreditar.
De tudo o que foi.
Só não me arrependo totalmente porque fiz tudo por ter um coração puro.
Mas agora que conheci uma nova forma de amor, não volto a dar metade do que já fui.
Não se volta mais a ser quem fomos.

junho 27, 2016


Olho para o meu corpo ao espelho e pergunto se será possível sermos a mesma Joana.
A barriga não se perdeu totalmente, mas tem vestígios de um abandono qualquer, como uma bola de futebol que ficou meia vazia, sem alma para se continuar a jogar com ela.
No fundo uma cicatriz que ainda arde e cuja pele, quando toco, está rugosa como uma estrada antiga com raízes das árvores que rasgaram o alcatrão.
Não sinto o fundo da barriga, é como se parte de mim estivesse adormecida.
Tenho vontade de chorar quando vejo a minha barriga porque sinto-me assaltada...
A Maria do Carmo dorme aqui ao lado, mas já não mexe aqui dentro.
Foi o primeiro passo para a independência da minha filha...
Marcam-me umas olheiras pesadas das noites que não são mais minhas e a pele está mais branca do que os meus longos invernos.
A maternidade é a dimensão mais preciosa que uma mulher pode ter e o amor que se sente por um filho é tão sublime que nos invade às lágrimas.
Mas há uma destruição qualquer daquilo que já fomos e que parece que não volta mais a ser igual.

junho 23, 2016


Às vezes olho para ela com uma sensação de incapacidade absoluta de a proteger do mundo e quase que me apetece pedir desculpa por isso e fugir.
As horas de privação de sono e o choro raro dela, mas que ainda não consigo descodificar, fazem-me chorar quando a tenho nos braços e sinto que não tenho capacidade para mais.
A vida tomou uma dimensão enorme.
Primeiro veio a montanha russa da mudança e depois os pequenos momentos em que já começo a saborear os silêncios com ela.
Ela chegou.
Poucos dias depois a minha avó, em quem me inspirei para lhe escolher o nome, partiu.
Tudo acontece a mil à hora.
E nada. Nada na vida é ao acaso.
A vida ganhou uma forma até aqui inigualável, mas para isso foi também preciso perder.
A Maria do Carmo nasceu e há já uma força nela igual à lei da natureza.

junho 01, 2016


Lá fora amanhece.
Bebo um capo de leite frio enquanto vejo a noite partir e a dar início a um novo ciclo, um novo dia.
Vim do hospital há umas horas sem a certeza se não ficaria já lá, porque o meu corpo resolveu dar alertas de cansaço.
A Maria do Carmo deveria nascer algures a meio de Junho, mas parece que tudo pode  acontecer a qualquer instante. E não é porque ela quer, mas porque o meu corpo parece que está a dizer que chegou ao limite.
E essa é a parte que nunca queremos ouvir.
A parte que não somos imortais e não controlamos as horas todas da vida.
Andamos sempre a viver como super heróis, no fio da navalha, com medo de ouvir os sinais que vêm de dentro.
Há um sinal a que agora me agarro mais do que nunca porque me acalma, haja o que houver neste novo dia que começa, também a minha filha decidiu escolher-me nesta altura e neste contexto e por isso temos de dar certo.
Não sei quando chegará ao certo ao meu colo, nem se vai caber ou nadar nas roupas que comprei com tanto amor, não sei se o meu cheiro a vai acalmar, ou se vai reconhecer as canções que ponho para ela ouvir agora, não sei se saberei parar o choro dela. Mas sei que ela me escolheu.
Assim. Tudo. Tal e qual aconteceu.
E se ela me provou que está completamente agarrada à vida, eu devo-lhe isso agora também.
Estou com medo do nascer desta manhã, mas se ela aguentou esta cruzada de me acompanhar, não posso eu falhar e não estar à altura.
A manhã começou...
Posso lá eu agora parar.

maio 12, 2016


Não sei que fenómeno é este que parece que tenho uma fera dentro de mim que suga tudo o que é comida e parece que nada chega, nada me satisfaz.
OH MEU DEUS EU NÃO ERA ASSIM!!!!

A manhã começa às 06h30.
Chove torrencialmente mas pela primeira vez isso agrada-me porque assim os pés aguentam um pouco mais sem inchar como os de um elefante.
Enquanto tomo banho olho para a barriga cada vez maior e penso como é bom a minha filha andar comigo para todo o lado.
Não lhe falo alto na esperança que não acorde, mas peço desculpa pela hora e pelo agito da vida da televisão.
Entramos para gravar num novo lugar.
A manhã ainda não começou para ninguém, só para a nossa equipa.
Gravam-se as primeiras cenas, trocam-se conversas de trabalho e revejo sempre alguém que afinal conheço há anos.
Nestes momentos soltos percebo que já ando por aqui há anos e que conquistei o meu espaço, é meu.
Às vezes acho que os outros me consideram mais do que eu própria,,,
A manhã para mim está cumprida e regresso a casa porque hoje decidi que o ritmo tem de abrandar um pouco.
Faço um café fraco e acendo uma vela porque acho que a chuva gelou a minha casa por fora.
Ligo o portátil e passo os olhos pelos mails mais urgentes.
Ponho a tocar bossa nova porque quero que a Maria do Carmo sinta a minha paixão pelo lado de lá do Atlântico.
Sento-me e respiro fundo.
E penso que chegar aqui não foi nada fácil, mas cheguei a uma paz  e a um estatuto moral que finalmente mereço.

abril 22, 2016


Há dias em que custa mais, é mesmo assim.
Não é sempre perfeito.
Dias em que acumulamos mais desilusões e onde o mundo que tentamos criar não é cor de rosa, nem lilás.
São os dias em que percebemos que não mudamos tudo o que está à nossa volta e há sempre algo que nos agride do exterior.
Ontem morreu um dos cantores que mais gostava,  mas também morreu mais gente dentro de mim. Faz parte do meu imaginário criar heróis e pessoas intocáveis.
Que disparate, sou lá uma miúda para ter mitos e super humanos.
Esse talvez tenha sido sempre um dos meus maiores erros, elevar pessoas e ideias quando elas não passam de coisas reais, cheias de erros e defeitos.
Hoje pus no banho uma das músicas que mais gostava de ouvir na voz dele e não me importei de chorar. Chorar só.
Quando é triste há que aceitar que é triste.
Não há volta a dar.
Depois secam-se as lágrimas e guarda-se na gaveta das desilusões mais um elemento de uma coleção que já vai grande.
Fecha-se a gaveta e não se abre até voltar a colocar uma outra.
Porque sabemos que ela virá, mais cedo ou mais tarde.
Mas vem sempre já com menos dimensão, porque já é uma repetição de algo que doeu sempre muito mais quando foi a primeira vez.


abril 20, 2016



O tempo é o meu maior companheiro.
Acordo sempre à mesma, se não for mais cedo.
O carro fica sempre no mesmo lugar, onde já digo bom dia às novas pessoas que fazem parte das minhas manhãs.
Sigo sempre pelo mesmo passeio e  passo sempre à porta de um mesmo lugar, onde toca uma música ambiente agradável que me pincela o arranque dos dias.
Às vezes vejo-o à janela e trocamos um adeus de bom dia, outras vezes desce e vem dar-me um abraço.
Mudei de morada do mesmo escritório e passei a deixar o carro em casa de um velho amigo.
E é boa esta sensação de se regressar aos bons lugares e às boas pessoas.
É bom caminhar com melodias na cabeça, chova ou faça sol e sentir que o mundo só é seguro pelas pessoas que nos rodeiam.
Eu escolho as pessoas que me rodeiam.
Faço o meu mundo seguro pelas escolhas que também faço.
Sem montanhas russas, nem ciclones, nem raros dias de clima tropical.
Caminho pela minha vida amena porque optei por não viver sempre esgotada e no fio da navalha.
Caminho pelo lado do passeio de onde sinto que vem o sol, apesar do caminho ser mais longo, mas consigo ver-lhe melhor o horizonte.
Foi o tempo que me fez escolher o caminho.
No tempo que me dei a mim própria para ouvir a minha intuição.
E nem sempre foi fácil ouvir os silêncios do tempo, quando só queria respostas.
O meu caminho tem a melodia do passado e das pessoas que nele me habitaram e que transportei para os dias de hoje.
E tem as pessoas que escolhi para o presente.
Tem uma vida nova que me habita e uma memória detrás.
O caminho que hoje faço só existe porque ouvi os silêncios do tempo e permiti que a intuição falasse.
Eu preparei-me, hoje em sei.
E é por isso que agora estou pronta para receber o maior presente que pedi à vida.
Ela vem no tempo certo, no caminho traçado e escolhido.
A minha filha.


abril 02, 2016

Geralmente nunca sou a primeira a dar o passo em falso.
Mas geralmente sou a última a dar o passo que encerra tudo.

março 25, 2016


À medida que os dias passam as minhas dúvidas são outras.
Será que tem a cara como a minha?
Será que os olhos serão grandes como os do pai?
Sei que é o reflexo de uma mistura nossa e isso parece quase um momento de pura alquimia.
Mas é também muito os estímulos que lhe dou.
Se fico triste, ou se choro, ou se salivo por comer um chocolate, ela segue-me em tudo como a minha sombra.
A Maria do Carmo é a alma que está dentro de mim.
De tanto a ter desejado às vezes sinto que a assusto, pelo medo de a perder.
Passo a mão na barriga e pergunto-lhe se ela tem ideia do quanto já a amo...
Será que sabe?

fevereiro 15, 2016

Céu cinzento.
A chuva bate como agulhas afiadas no vidro do carro.
O túnel que geralmente facilita a minha chegada ao destino, hoje está todo parado.
15 minutos fechada num buraco sem luz e a respiração começa a apertar.
Saio do túnel quase sem fôlego.
Faço pisca para tentar mudar de faixa mas um autocarro duplo cola-se a mim e agride os meus ouvidos, sem tirar a mão da buzina.
Abro o vidro e insulto-o sem qualquer pudor nas palavras.
Grito com toda a fúria que já acumulei no pouco tempo que foi já este meu dia.
Entro na faixa para onde queria ir.
E volto a olhar para trás e a insultá-lo, com um ódio visceral.
Chego ao estacionamento e hoje deixo o carro no lugar das grávidas, nunca o faço porque gosto de me comportar sem privilégios, mas hoje já chega.
Entro no escritório e dou um gole num café que sei que não devia beber.
Também não devia discutir.
Também devia ser mais frágil, mas não sou.
A barriga contrai-se toda, dói.
Tenho uma vontade louca de partir as coisas e sair, de regressar a casa.
Tenho uma vontade louca de ter um mundo justo.
E num mundo justo um autocarro que é 4 vezes do meu tamanho e conduzido por um homem, nunca pode ser uma ameaça a uma mulher.
E grávida ou não, enquanto um homem ameaçar uma mulher, seja eu ou outra, vou sempre ter um ódio visceral, capaz de o esmagar.
É verdade... hoje é segunda... já se esperava que fosse ser assim...

fevereiro 11, 2016



Como é que imaginamos alguém que ainda não vimos cara a cara?
Mesmo que nos toque todos os dias.
Mesmo que possa ser uma réplica nossa de personalidade.
Mesmo que seja uma extensão da nossa pele, como será o olhar de alguém que ainda não vimos?
Escolhemos um nome para lhe definir já os primeiros traços e pelo bater da barriga e os braços no ar, achamos que vai ser uma agitadora de pessoas e ideias.
Como é que se afirmará perante os outros?
Que importância terá para ela o amor pelos outros?
Não a vejo bem ainda.
Porque ainda está a crescer.
Para já fiz a única escolha que podia ter feito por ela.
É a Maria do Carmo.
O resto será tudo o que a liberdade dela lhe permitir ser.
E isso ainda me faz amá-la mais.
Não saber quem será a minha Maria.

Mas calcular um pouco…


Enquanto lia um guião sobre Newton e a lei da atração dos corpos, e  que quanto mais perto estão, mais a probabilidade da atração é forte, perguntei se isso explica que quando nos aproximamos de alguém é por uma questão científica e não mágica.

Ou a magia afinal é feita de física, apesar de dizermos sempre que o que nos liga ao outro é a química que sentimos num instante?

E se afinal o amor for científico, isso fortalecerá as nossas escolhas?


fevereiro 10, 2016


Tive sim, uns quantos amores.
Vivi sim, alguns arrebatadores e outros senti-os como mentira.
Apaixonei-me sim e fiz sempre o que quis na altura que quis.
Errei sim.
E acertei tanto.
Tive sim, todos os desejos do mundo.
Vivi-os na medida que achei serem os certos.
Mas também vivi os desejos errados.
Desisti muito.
E sim, empenhei-me outro tanto.
Vivi tudo num sopro.
E causei tempestades.
Colhi ventos e flores.
Espetei farpas e acumulei os meus próprios espinhos.
Tive sim tudo quanto quis.
Sem culpa. Sem medo, ou complexos.
Sim, fui exatamente tudo o que quis ser.

E hoje não seria tão completa se não tivesse vivido tudo!

fevereiro 08, 2016


Acordamos todos os dias juntas.
E à noite ponho músicas a tocar no telefone em cima da barriga, para que ouça tudo.
Durmo de lado porque é como prefere dormir comigo.
No banho deixo a água quentinha bater na barriga e fico parada a olhá-la..
Faço sumo de laranja e como morangos porque sei que adora.
Atravessamos a rua juntas e ela vai sempre uns milímetros à minha frente.
Quando vem o vento tento fechar o casaco para a proteger, mas já não cabe tudo.
Entro no elevador e vejo-a através de mim.
O meu corpo abraça-a dia a noite.
Nas reuniões quando me chama a atenção a dizer que já tem fome, toco-a por cima da minha pele e peço-lhe mais paciência.
Todos os dias amo-a um bocadinho mais e adoro que ela esteja comigo segundo após segundo e é só minha.
O primeiro e grande papel de ser mãe é exatamente este.
Todos os dias lhe dou mais vida e ela não me larga.
Vivemos uma para a outra.
E não há ninguém que mais alguma vez ocupe esta importância no nosso coração.
Ser mãe é um privilégio que só pode ter um toque divino.



janeiro 29, 2016



Sempre acreditei que somos protegidos por forças maiores que não se vêem.
Mas sinto-as desde há muito tempo e nem sempre soube lidar com elas.
São os anjos de guarda que têm vários rostos.
Alguns são Orixás.
Os Orixás têm músicas e eu costumo cantar a música do meu Orixá à minha bebé.
É como se fosse a sua canção de embalar.
Ela ouve e acalma.
Eu sinto-me mais protegida assim e sinto-os perto.
E acho que também me embalam.
Ontem numa crise de choro acho que vi alguém passar.
Não sei se estou tonta ou não, mas sei que há energia a mais para sermos só nós.
O choro passou porque a minha bebé acalmou e a barriga parou de doer.
Hoje é dia de um dos meus Orixás, por dentro da roupa guardo um cordão de contas para lhe pedir proteção e eu acho que resulta.
Ele ouve e há qualquer coisa que me acalma.
E não há quem me tire da cabeça que ontem passou por mim…
 para me dizer que está a olhar pela minha bebé.
A bebé que lhe pedi que viesse, quando viajei até ao Brasil só para os reencontrar.


janeiro 25, 2016


A semana começou com a entrega intensa de pré-inscrições em creches com apoio social.
A minha filha ainda não nasceu, mas já sou obrigada a pensar mais além.
Se calhar planeamos tudo demasiado, mas se não for assim parece que perdemos o comboio.
As escolas onde entro são enormes e as crianças lá dentro parecem formigas num quartel, parece tudo muito frio e institucional.
Chove a potes e o dia não chega a ver luz, não ajuda a gostar dos lugares cheios de freiras e gente meio parada no tempo que não sabe atender duas chamadas ao mesmo tempo.
Numa das escolas somos recebidos por uma freira.
Ela é amorosa.
Diz-me com um ar muito preocupado que a experiência lhe diz que não se deve deixar bebés tão pequenos numa creche e que o melhor será ficarem em casa com os avós, ou alguém de confiança.
Ouço-a com um sorriso meio amarelo e penso que me está a dizer suavemente que a minha bebé não vai entrar.
Respondo que os avós trabalham.
E não lhe explico que ter a tal pessoa de confiança implica custos que se calhar não podem ser assumidos.
E também não lhe digo que por vontade própria nunca entregaria uma bebé de 4 meses a ninguém.
Saio com a sensação que não voltarei lá tão cedo.
Entro no carro e continua a chover.
Não me fixo em nada de especial.
Apenas na ideia que a vida que tenho não me permite ser mãe por muito tempo seguido e que viver nos tempos de hoje é muito mais duro do que quando eu fiquei entregue à minha avó para ela tomar conta de mim.
Ser mãe nos dias de hoje e não tendo um bom ordenado, é só para loucos.

Ou muito corajosos.

janeiro 21, 2016

Lembro-me que quando chegava a casa à noite, depois de sair até tarde com os meus amigos, ainda me ia sentar em frente à televisão a ver um canal internacional de desporto.
Comia bacalhau desfiado cru e bebia um copo de vinho tinto, esticava as pernas e o meu coração saltava cada vez que assistia a um combate de boxe.
Quando ele subia ao ringue era como se a superfície da minha pele recebesse um estímulo incontrolável.
O meu lutador preferido foi sempre ele.  Evander Holyfield. Lembro-me tão bem…
Acho que as raparigas sempre procuraram super heróis, ele era o meu.
E por isso o boxe sempre me esteve no sangue, como se pertencesse a uma matriz genética que não se escolhe, mas herda-se.
Passaram anos, mas o gosto não.
Numa destas noites resolvi que a melhor coisa que podia fazer para descontrair seria ir para a cama ver um filme… de boxe.
Porque estou grávida sei que fico mais sensível com algumas coisas, mas não mudei, sou a mesma. Movem-me as mesmas coisas.
Enquanto via o filme senti muitas vezes a barriga e pensei se seria a mãe certa.
A mãe certa vê boxe à noite para relaxar e pratica rpm e corre?
Se calhar não e isso faz-me pensar se as coisas que me movem existem por alguma dor mal contida.
Mas fazem-me feliz, então não há nada de errado.
Ou há?
A minha bebé tem sempre as mãos no ar quando a vejo através das ecografias e esperneia como se quisesse agarrar a vida em cada fração de segundo.
Será que um dia vai mover-se da mesma forma que eu?