Janeiro 04, 2010


It takes 2 to...

Castles down


Sempre que brinquei com os teus miúdos achei que podiam ser os meus.
Vesti-os com a pele ainda molhada e apertei vestidos cor-de-rosa de botões pequenos, penteei-os à pressa enquanto me fugiam para o quarto de brincar e gritavam por mim.
Penduravam-se no meu pescoço, como se fosse um galho de algo sólido para eles.
Lia as histórias das fadinhas e adormecia antes deles, que teimavam saltitar à minha volta como se o dia não tivesse fim.
Eram os teus miúdos, que fingia que podiam ser só os meus. Os meus miúdos, os filhos que quis sempre ter e que nunca quis que fossem os nossos.
Talvez tenha sonhado sempre demais, construí demasiados castelos com raízes de pó e aquilo que quis nunca foi encontrado, mesmo quando adormeci tantas noites ao teu lado.
- Talvez não venha a ter filhos se não for contigo - dizes-me com o olhar opaco, agora que já não somos nada um ao outro.
E eu talvez nunca os tenha porque a vida anda desencontrada demais e os miúdos que eu gostaria de ter, só tu os queres comigo.
E hoje percebo-te o que dói quereres o que mais ninguém planeia vir a querer.

Dezembro 29, 2009

Podíamos ir por aí.
Agarravas na tua mochila e eu na minha, perdida pelo quarto de vestir e partíamos daqui.
Podíamos agarrar no carro ou seguir de avião, sem marcar nada, apenas a data de partida.
Guardávamos peças de roupa ao acaso e casávamos a tua roupa com a minha, levavas o teu cachecol para mim e eu deixa-te usar o meu gorro, era uma troca justa?
Podíamos ir por aí.
Paris, Londres, Florença, Barcelona ou Amesterdão... podíamos não voltar tão depressa.
Levavas o teu livro e lias para mim em qualquer lugar em movimento, bebíamos café do mundo e caminharíamos até cedermos ao cansaço.
Se fossemos por aí, seguravas-me numa rua estranha e desencontravas-te de mim nos corredores de um museu?
Levaríamos a moleskine para escrever sobre lugares perdidos e marcaríamos mapas com trajectos diários.
Comíamos pão na rua e espreitávamos montras de culturas que nos puxam para dentro delas.
Podíamos ir por aí.
Dormíamos numa cama pequena, encaixados como peças de um puzzle e usaria meias de lã até aquecer na tua pele gelada pela noite.
Soprarias para a minha cara e saíriam de ti bolhas de vapor, como se fumássemos a toda a hora um do outro.
Talvez Barcelona, ou Paris, Londres, Florença ou Amesterdão.
Podíamos ir por aí.

Apetece-me desconstruir o óbvio.

O óbvio que me é dado.

O óbvio de aturar a loucura dos outros.

O óbvio de haver corruptos.

O óbvio de se mentir para alcançar metas pessoais.

O óbvio de ser egoísta.

O óbvio de não se sonhar.

O óbvio que está a distorcer tudo quanto acredito.

Dezembro 28, 2009

Altar particular

Pregamos as andorinhas na parede, anunciamos qualquer coisa que veio para ficar como certa.
Pomos um dvd, adormeço num instante escondida em ti, seguras-me.
Beijo-te por cima do cortinado do banho e sinto a tua boca ainda quente.
Imitas-me a dormir e fazes-me rir a meio da noite.
Abro os olhos e já estás lá a olhar como se me guardasses o tempo todo.
Caminhas descalço no chão de tacos, eu de pantufas.
Saio do banho, entras tu.
Sentas-te ao meu lado a ver as notícias da manhã e queres saber do Benfica, enquanto eu pergunto pelo tempo.
Bebemos café, tu o mais forte, eu o mais fraco.
Despeço-me de ti uma quantidade de vezes até conseguir sair, dizes sempre até já.
A intimidade faz-se daquilo que não se verbaliza, faz-se das rotinas vividas nos minutos que nos juntam e nas horas que nos separam.
Não precisavas de acordar já, chove e não entra luz pela janela, mas sei que a seguir a mim vens tu... porque faz parte da nossa dança neste altar que nos é tão particular.

Dezembro 24, 2009


E agora vou para o quentinho, com direito a tudo o que tem o meu Natal.

Mãe, avós, mantas de lã e uma lareira acesa.

Saboreio a aletria da avó e bebo chá, provo os fritos todos e vejo pela centésima vez a "Música no Coração" até adormecer.

Prepara-se o único jantar do ano em que falamos todos sem olhar para o relógio e esquecemos que a televisão nos engole a comunicação. Brindamos e saboreamos tudo o que é preparado com tanto carinho.

O avô volta a contar as mesmas memórias de sempre e eu recosto-me e sinto que enquanto for assim e os tiver na minha vida, sou uma pessoa muito feliz.

Faltou o pai e os manos que hoje apenas abraço no meu coração.

Feliz Natal a todos vocês.

Sabia que dali em diante nenhum dos dois podia falhar.
Tinha sido dada a última oportunidade.
Era natal e tinham vontade de fingir mais um ritual familiar, como o tinham feito até ali, talvez por quererem continuar a acreditar que podiam ser um casal.
Foi buscá-lo à porta de casa, a casa que já fora dos dois.
Esperou. Telefone desligado. Janelas fechadas.
Era mais um natal em que nada tinha mudado e percebeu que nunca iria mudar.
Então não hesitou, entrou no carro sozinha e seguiu caminho, sozinha, para aquele que deveria ser um almoço de família.
Parou a meio do caminho, numa estrada de lama e chorou tudo quanto foi preciso, chorou tanto quanto a chuva torrencial que caiu em cima do carro. Por fim secou.
"Vens sozinha?".
Tremeu talvez a voz e ficou com um olhar duro e carregado de vermelho respondeu que a partir daquele dia iria sempre sozinha.
Foi num natal qualquer, um natal que não desejaria nunca mais.
Um Natal que não se repetiu mais porque percebeu que já não o queria mais.
A partir daí o Natal só podia ser mais feliz, mesmo que seguisse sempre o caminho sozinha, como o passou a seguir.

Dezembro 23, 2009

Não te cales.
Não cedas.
Não aceites tudo só porque sim.
Questiona, questiona, não aches que pensar é para quem complica.
Põe dúvidas, duvida dos outros e de ti, hesita quantas vezes forem precisas até te sentires segura.
Avança mesmo que não tenhas ninguém a apoiar-te atrás.
Não tenhas medo da solidão se ela for a consequência por quereres ser livre.
Diz que não, nega-te, mas defende aquilo que crês ser o certo.
Luta, magoa-te, quebra e perfura-te, mas não desistas de defender convicções.
Tem convicções, as tuas.
Não aceites porque te é dado, porque não dá trabalho, porque é mais fácil, porque todos os outros já aceitaram.
Grita, discute, argumenta, defende pontos de vista, mesmo quando não te deixam falar, sê louca de acreditares que a liberdade de expressão é um direito garantido.
Não envelheças, não deixes de te aventurar, não faças com que as amarras te proíbam de voar, não. Não! Não!
Não sejas ignorante, não te orgulhes de o ser.
Perde o sono, perde-te no meio dos outros.
Provoca-te, provoca o óbvio, provoca a tua consciência se fores capaz.
Pois dói. Pois vais ficar sozinha a maior parte das vezes. Pois vais. Pois é duro, é ingrato. Ás vezes apetece desistir. Mas não. Não!
És capaz?
Pois não, não és há muito.

Dezembro 21, 2009

No teu colo


Tu: Vou ao supermercado, queres que te compre alguma coisa?

Eu: Não.

Tu: Compro-te colinho!

Eu: Colinho ??!!!

Tu: Colinho JPS, para levares contigo todos os dias para o trabalho.


...

Lisboa Song


Perdi-o por fracções de segundos por entre livros e corredores da livraria que visita como se fosse da família. Escondi-me atrás da estante dos livros dos escritores brasileiros e dei por um livro perdido no lugar errado, era uma história de amor em lisboa.
Dispersei-me pelos títulos, mas voltei sempre ao corredor de passagem porque sabia que o veria pouco depois.
Sorri-lhe enquanto o vi tocar nos livros, como se fossem prolongamentos dos seus dedos, da sua vida, da sua personalidade.
Perdi-o novamente de vista, tantas vezes quantas o retomei, sempre sem falarmos, apenas num sorriso cúmplice por entre uma multidão.
Um frio aterrador entranhou-se nas esquinas das ruas de lisboa, era como se a pedra antiga fosse pó gelado a correr nas nossas veias e soube-nos bem.
Caminhámos pelo chiado como se procurássemos sempre o nosso ponto de equilíbrio, como se um lugar nos contasse baixinho a nossa própria história, a dois.
Uma fila longa em que se dá o nome para nos entregarem os grandes copos da Starbucks: “João, um exclusivo de chocolate e um capuccino”… Entre sacos com as prendas das mães e as mãos aquecidas pelas bebidas, vagueámos por ali, um lugar que nos acolhe e que nos prolonga por qualquer motivo que não sabemos explicar.
Um gorro de lã, um nariz vermelho do frio, as mãos dadas com luvas de pele, o chocolate quente a escorrer pela minha pele, um fado da Amália, uma multidão e o nosso olhar perdido e encontrado um no outro.
“Vamos para casa?”.
Amo-te assim todos os dias porque tinha de ser assim, tudo assim…no lugar onde está.


«Havia aquela música indefinível que todas as coisas murmuram quando subitamente percebes que estás apaixonado.»
Lisboa song, era o nome do livro que vi perdido quando te encontrei mais um dia na minha vida.

Dezembro 18, 2009

Fim de norma


Crescemos juntos e em miúdos não fazíamos ideia qual de nós ia ser bem sucedido e quem ia ter filhos ou ficar solteiro, quem iria vestir-se de igual, ou ser diferente da norma.
O que nós adorávamos as normas. Putas de normas e regras e padrões e esterótipos e preconceitos, tudo aceite sem pensar, sem questionar, importava apenas sermos todos iguais.
Corremos juntos para não perder o ritmo da vida e nessa altura apoiavamo-nos uns nos outros, como pilares que não se aguentam por si só...precisámos uns dos outros. Acreditámos que sim.
Crescemos. Demasiado corrompidos pela vida. Tanto, que nos perdemos daquilo que um dia foi a nossa identidade comum.
Já não somos nada comum, apenas um passado que já não projecto mais no futuro.
Hoje decidi que me queria despedir...
Por favor, não me procurem mais.
Desisti de ser encontrada...

Dezembro 17, 2009

Inspiras-me!


As your leader… I encourage you, from time to time, and always in a respectful manner…to question my logic. If you’re unconvinced a particular plan I’ve decided is the wisest, tell me so. But allow me to convince you… and I promise you right here and now no subject will ever be taboo. Except of course the subject that was just under discussion. The price you pay… for bringing up either my Chinese or American heritage as a negative is: I collect your fucking head. Just like this fucker here.
Now if any of you sons of bitches got anything else to say… now’s the fucking time!

Dezembro 13, 2009

O primeiro

Vi-o da varanda, num sábado à tarde já o frio entrava pelas portadas de madeira, vinha ainda ao fundo da minha rua, trazia um casaco comprido preto e os óculos a tapar-lhe as expressões mais bonitas do olhar.
Tocou à porta e estremeci quando o ouvi subir as escadas.
Falámos como dois estranhos que resolveram qualquer coisa em comum e não sabem ainda o quê.
Saímos porque a casa era ainda um desconforto para ambos, uma intimidade ainda não procurada.
Sentámo-nos frente a frente, numa casa de chá, com painéis chineses e candeeiros de veludo, um scone com pétalas de rosa secas e aromas e infusões diferentes e de sabores ácidos.
A tarde caiu e não dei por ela. Saiu antes de mim com um "até já".
Dele fiquei a saber que gostava de açorda de coentros...
Vi-o de novo, nesse sábado, já vestido na pele de um, até então estranho para mim Luiz Pacheco, despido de qualquer roupa, vestido de um alguém que não era apenas uma personagem, era também um pouco dele.
Acabou a primeira peça que vi com ele.
Saí.
As poucas horas que nos separaram, passaram.
Vi-o de novo nesse sábado, já o dia passava para domingo.
Um brinde. Um profundo olhar.
Um beijo. Outro. Outro e tantos.
Não sei a razão de o ter ido ver àquela que seria a primeira de muitas peças, não sei a razão, mas apaixonei-me no momento em que o vi, a ele, sem personagens, ou papéis, ou trabalhos comuns.
Vi-o. Senti-o. Vivi-o. Perdi-o. Perdi-me.
Regressámos com um passado nosso e com um travo da açorda de coentros nos olhos e num paladar que nos é comum. Regressámos com ciladas e invejas e más explicações e uma paixão que o tempo nem ninguém roubou.
Vi-o de novo e perdi-me nele.
Vi-o, num sábado de manhã, ainda mal acordado diante de mim, despido do mundo, vestiu-se então de mim.
Não sei ao certo porque o quis na minha vida, não sei ao certo o momento exacto em que me apaixonei por ele, sei que aconteceu sem planear ou procurar, aconteceu porque tínhamos de nos encontrar...
Encontro-o sempre desde há um ano.
Encontro-o nas palavras de um texto de uma Velha Casa, nas receitas antigas das açordas de coentros, no mesmo olhar que tem hoje. encontro-o nos objectos que deixa pela casa, no cheiro da roupa que dobro, encontro-o quando o deixo de carro à porta do teatro, encontro-o quando estendo a mão à noite e dorme ali ao lado.
Encontro o João em mim todos os dias desde há um ano.

Dezembro 08, 2009

Une marche pour la vie


"O amor foi dito.

O amor foi feito.

Todos à nossa volta se calam.

(...)

É no equilíbrio da nossa dança que executamos o gesto perfeito,

aquele pequeno passo...

aquele pequeno passo."
Chegamos ao terraço do hotel do chiado, para fugir à confusão instalada nas ruas.
É um feriado solarengo e temos o tempo todo do nosso lado.
Os olhos enxergam o horizonte que ignoramos, quando passeamos no chiado e só vemos as montras de natal.
Dois chocolates a ferver, um sofá todo para mim e então, no cair da tarde em lisboa, deixo-me escorregar e repouso ao som das gaivotas que sobrevoam o tejo e a minha vida.
Falamos sobre as coisas que nunca tenho tempo de dizer à mãe quando venho do trabalho.
Ao meu lado guardo a prenda de natal que a mãe resolveu oferecer-me já, as andorinhas do Bordalo Pinheiro que eu cobiçava como uma das coisas mais preciosas para mim.
Aqueço as mãos na chávena que arrefece depressa e volto a descansar no conforto de ver lisboa, como se planasse sobre ela, tal como as gaivotas o fazem agora.
Fico em silêncio e olho para a cidade onde sempre vivi e que sempre me conheceu.
Nem sempre reconheço esta cidade que me habita e as pessoas que me rodeiam, às vezes preciso de me reconciliar com ela para continuar por cá a viver.
Nesta paz que não parece lisboa, hoje neste terraço do chiado, sei que as pessoas principais e as que amo estão todas ao meu lado e isso enriquece o coração a cada batida que ele dá...
E sorrio, devagar, sem ter de explicar a ninguém a razão da minha paz.

Dezembro 07, 2009

Já te disse hoje que gosto de ti?
E que gosto de acordar quando chegas tarde e ir a correr pelo corredor fora e só parar nos teus braços cansados de um dia de ensaios?
E já te disse que só adormeço quando me lês uma parte do teu livro e que a tua voz me acalma os piores fantasmas?
E que não há melhor colo do que aquele que me dás quando me aconchegas na toalha de banho e envolves num beijo para não me veres mais chorar?
Já te disse que peguei num pijama teu de bebé e que te embalei no meu colo, como o fazes tantas vezes comigo?
Já te disse meu amor que se a vida se esgotasse no próximo minuto, tudo já teria valido a pena?
Estes são os nossos alicerces, o que nos move todos os dias, a nossa vida que algumas pessoas invejam e dessa inveja nasce a minha alegria de ver que, aconteça o que acontecer, tu estás ao meu lado.
Então o mundo que caia à nossa frente, não dou por ele contigo aqui.
Já te disse hoje que gosto de ti?

Dezembro 04, 2009

Who is Parisienne?


Não sei do que gosto mais, se do corpete, se do perfume ou da Kate Moss.
Ou se tenho apenas saudades de Paris e gosto de tudo o que me remete para lá...

Novembro 23, 2009


Abraçou-me com os olhos em lágrimas.

- Continuas tão magra porquê?

Olhou-me de novo sem se conter.

- Tens passado a última fase da tua vida à espera, não é?

Bolas.

É.


Ouves-me?
Mesmo quando não te falo?
Ouves-me, mesmo quando te chamo pelo nome e olho no fundo de ti e te reclamo?
Ouves-me quando não estás e dás notícias como se estivesses longe, num planeta distante?
Ouves-me os soluços quando estou sozinha?
Mesmo quando adormeces no fim de um dia e estás exausto.
Ouves-me?
Ouves-me quando cai a noite às 5 da tarde e não sei mais de ti até dormir?
Ouves-me quando partes sempre com razões diferentes?
E ouves-me quando me vês sorrir?
Ouves-me quando saio de casa e caminho para longe?
Ouves-me quando nada te digo e apenas escrevo?
Ouves-me ao longe mesmo quando estás aqui perto?

Ouves-me?

Mesmo quando te falo directamente?

Não respondas, porque assim fico na esperança de que ainda não me tenhas ouvido...

Novembro 21, 2009

... há algo que não me acompanha.
Uff, talvez ganhe coragem para ir embora daqui.