maio 12, 2016
A manhã começa às 06h30.
Chove torrencialmente mas pela primeira vez isso agrada-me porque assim os pés aguentam um pouco mais sem inchar como os de um elefante.
Enquanto tomo banho olho para a barriga cada vez maior e penso como é bom a minha filha andar comigo para todo o lado.
Não lhe falo alto na esperança que não acorde, mas peço desculpa pela hora e pelo agito da vida da televisão.
Entramos para gravar num novo lugar.
A manhã ainda não começou para ninguém, só para a nossa equipa.
Gravam-se as primeiras cenas, trocam-se conversas de trabalho e revejo sempre alguém que afinal conheço há anos.
Nestes momentos soltos percebo que já ando por aqui há anos e que conquistei o meu espaço, é meu.
Às vezes acho que os outros me consideram mais do que eu própria,,,
A manhã para mim está cumprida e regresso a casa porque hoje decidi que o ritmo tem de abrandar um pouco.
Faço um café fraco e acendo uma vela porque acho que a chuva gelou a minha casa por fora.
Ligo o portátil e passo os olhos pelos mails mais urgentes.
Ponho a tocar bossa nova porque quero que a Maria do Carmo sinta a minha paixão pelo lado de lá do Atlântico.
Sento-me e respiro fundo.
E penso que chegar aqui não foi nada fácil, mas cheguei a uma paz e a um estatuto moral que finalmente mereço.
abril 22, 2016
Há dias em que custa mais, é mesmo assim.
Não é sempre perfeito.
Dias em que acumulamos mais desilusões e onde o mundo que
tentamos criar não é cor de rosa, nem lilás.
São os dias em que percebemos que não mudamos tudo o que
está à nossa volta e há sempre algo que nos agride do exterior.
Ontem morreu um dos cantores que mais gostava, mas também morreu mais gente dentro de mim. Faz
parte do meu imaginário criar heróis e pessoas intocáveis.
Que disparate, sou lá uma miúda para ter mitos e super
humanos.
Esse talvez tenha sido sempre um dos meus maiores erros,
elevar pessoas e ideias quando elas não passam de coisas reais, cheias de erros
e defeitos.
Hoje pus no banho uma das músicas que mais gostava de ouvir
na voz dele e não me importei de chorar. Chorar só.
Quando é triste há que aceitar que é triste.
Não há volta a dar.
Depois secam-se as lágrimas e guarda-se na gaveta das
desilusões mais um elemento de uma coleção que já vai grande.
Fecha-se a gaveta e não se abre até voltar a colocar uma
outra.
Porque sabemos que ela virá, mais cedo ou mais tarde.
Mas vem sempre já com menos dimensão, porque já é uma
repetição de algo que doeu sempre muito mais quando foi a primeira vez.
abril 20, 2016
O tempo é o meu maior companheiro.
Acordo sempre à mesma, se não for mais cedo.
O carro fica sempre no mesmo lugar, onde já digo bom dia às
novas pessoas que fazem parte das minhas manhãs.
Sigo sempre pelo mesmo passeio e passo sempre à porta de um mesmo lugar, onde toca
uma música ambiente agradável que me pincela o arranque dos dias.
Às vezes vejo-o à janela e trocamos um adeus de bom dia,
outras vezes desce e vem dar-me um abraço.
Mudei de morada do mesmo escritório e passei a deixar o
carro em casa de um velho amigo.
E é boa esta sensação de se regressar aos bons lugares e às
boas pessoas.
É bom caminhar com melodias na cabeça, chova ou faça sol e
sentir que o mundo só é seguro pelas pessoas que nos rodeiam.
Eu escolho as pessoas que me rodeiam.
Faço o meu mundo seguro pelas escolhas que também faço.
Sem montanhas russas, nem ciclones, nem raros dias de clima
tropical.
Caminho pela minha vida amena porque optei por não viver
sempre esgotada e no fio da navalha.
Caminho pelo lado do passeio de onde sinto que vem o sol,
apesar do caminho ser mais longo, mas consigo ver-lhe melhor o horizonte.
Foi o tempo que me fez escolher o caminho.
No tempo que me dei a mim própria para ouvir a minha
intuição.
E nem sempre foi fácil ouvir os silêncios do tempo, quando
só queria respostas.
O meu caminho tem a melodia do passado e das pessoas que
nele me habitaram e que transportei para os dias de hoje.
E tem as pessoas que escolhi para o presente.
Tem uma vida nova que me habita e uma memória detrás.
O caminho que hoje faço só existe porque ouvi os silêncios
do tempo e permiti que a intuição falasse.
Eu preparei-me, hoje em sei.
E é por isso que agora estou pronta para receber o maior
presente que pedi à vida.
Ela vem no tempo certo, no caminho traçado e escolhido.
A minha filha.
abril 02, 2016
março 25, 2016
À medida que os dias passam as minhas dúvidas são outras.
Será que tem a cara como a minha?
Será que os olhos serão grandes como os do pai?
Sei que é o reflexo de uma mistura nossa e isso parece quase um momento de pura alquimia.
Mas é também muito os estímulos que lhe dou.
Se fico triste, ou se choro, ou se salivo por comer um chocolate, ela segue-me em tudo como a minha sombra.
A Maria do Carmo é a alma que está dentro de mim.
De tanto a ter desejado às vezes sinto que a assusto, pelo medo de a perder.
Passo a mão na barriga e pergunto-lhe se ela tem ideia do quanto já a amo...
Será que sabe?
fevereiro 15, 2016
Céu cinzento.
A chuva bate como agulhas afiadas no vidro do carro.
O túnel que geralmente facilita a minha chegada ao destino, hoje está todo parado.
15 minutos fechada num buraco sem luz e a respiração começa a apertar.
Saio do túnel quase sem fôlego.
Faço pisca para tentar mudar de faixa mas um autocarro duplo cola-se a mim e agride os meus ouvidos, sem tirar a mão da buzina.
Abro o vidro e insulto-o sem qualquer pudor nas palavras.
Grito com toda a fúria que já acumulei no pouco tempo que foi já este meu dia.
Entro na faixa para onde queria ir.
E volto a olhar para trás e a insultá-lo, com um ódio visceral.
Chego ao estacionamento e hoje deixo o carro no lugar das grávidas, nunca o faço porque gosto de me comportar sem privilégios, mas hoje já chega.
Entro no escritório e dou um gole num café que sei que não devia beber.
Também não devia discutir.
Também devia ser mais frágil, mas não sou.
A barriga contrai-se toda, dói.
Tenho uma vontade louca de partir as coisas e sair, de regressar a casa.
Tenho uma vontade louca de ter um mundo justo.
E num mundo justo um autocarro que é 4 vezes do meu tamanho e conduzido por um homem, nunca pode ser uma ameaça a uma mulher.
E grávida ou não, enquanto um homem ameaçar uma mulher, seja eu ou outra, vou sempre ter um ódio visceral, capaz de o esmagar.
É verdade... hoje é segunda... já se esperava que fosse ser assim...
A chuva bate como agulhas afiadas no vidro do carro.
O túnel que geralmente facilita a minha chegada ao destino, hoje está todo parado.
15 minutos fechada num buraco sem luz e a respiração começa a apertar.
Saio do túnel quase sem fôlego.
Faço pisca para tentar mudar de faixa mas um autocarro duplo cola-se a mim e agride os meus ouvidos, sem tirar a mão da buzina.
Abro o vidro e insulto-o sem qualquer pudor nas palavras.
Grito com toda a fúria que já acumulei no pouco tempo que foi já este meu dia.
Entro na faixa para onde queria ir.
E volto a olhar para trás e a insultá-lo, com um ódio visceral.
Chego ao estacionamento e hoje deixo o carro no lugar das grávidas, nunca o faço porque gosto de me comportar sem privilégios, mas hoje já chega.
Entro no escritório e dou um gole num café que sei que não devia beber.
Também não devia discutir.
Também devia ser mais frágil, mas não sou.
A barriga contrai-se toda, dói.
Tenho uma vontade louca de partir as coisas e sair, de regressar a casa.
Tenho uma vontade louca de ter um mundo justo.
E num mundo justo um autocarro que é 4 vezes do meu tamanho e conduzido por um homem, nunca pode ser uma ameaça a uma mulher.
E grávida ou não, enquanto um homem ameaçar uma mulher, seja eu ou outra, vou sempre ter um ódio visceral, capaz de o esmagar.
É verdade... hoje é segunda... já se esperava que fosse ser assim...
fevereiro 11, 2016
Como é que imaginamos alguém que ainda não vimos cara a
cara?
Mesmo que nos toque todos os dias.
Mesmo que possa ser uma réplica nossa de personalidade.
Mesmo que seja uma extensão da nossa pele, como será o olhar
de alguém que ainda não vimos?
Escolhemos um nome para lhe definir já os primeiros traços e
pelo bater da barriga e os braços no ar, achamos que vai ser uma agitadora de
pessoas e ideias.
Como é que se afirmará perante os outros?
Que importância terá para ela o amor pelos outros?
Não a vejo bem ainda.
Porque ainda está a crescer.
Para já fiz a única escolha que podia ter feito por ela.
É a Maria do Carmo.
O resto será tudo o que a liberdade dela lhe permitir ser.
E isso ainda me faz amá-la mais.
Não saber quem será a minha Maria.
Mas calcular um pouco…
Enquanto lia um guião sobre Newton e a lei da atração dos
corpos, e que quanto mais perto estão, mais a probabilidade da atração é forte,
perguntei se isso explica que quando nos aproximamos de alguém é por uma
questão científica e não mágica.
Ou a magia afinal é feita de física, apesar de dizermos
sempre que o que nos liga ao outro é a química que sentimos num instante?
E se afinal o amor for científico, isso fortalecerá as nossas
escolhas?
fevereiro 10, 2016
Tive sim, uns quantos amores.
Vivi sim, alguns arrebatadores e outros senti-os como
mentira.
Apaixonei-me sim e fiz sempre o que quis na altura que quis.
Errei sim.
E acertei tanto.
Tive sim, todos os desejos do mundo.
Vivi-os na medida que achei serem os certos.
Mas também vivi os desejos errados.
Desisti muito.
E sim, empenhei-me outro tanto.
Vivi tudo num sopro.
E causei tempestades.
Colhi ventos e flores.
Espetei farpas e acumulei os meus próprios espinhos.
Tive sim tudo quanto quis.
Sem culpa. Sem medo, ou complexos.
Sim, fui exatamente tudo o que quis ser.
E hoje não seria tão completa se não tivesse vivido tudo!
fevereiro 08, 2016
Acordamos todos os dias juntas.
E à noite ponho músicas a tocar no telefone em cima da barriga, para que ouça tudo.
Durmo de lado porque é como prefere dormir comigo.
No banho deixo a água quentinha bater na barriga e fico parada a olhá-la..
Faço sumo de laranja e como morangos porque sei que adora.
Atravessamos a rua juntas e ela vai sempre uns milímetros à minha frente.
Quando vem o vento tento fechar o casaco para a proteger, mas já não cabe tudo.
Entro no elevador e vejo-a através de mim.
O meu corpo abraça-a dia a noite.
Nas reuniões quando me chama a atenção a dizer que já tem fome, toco-a por cima da minha pele e peço-lhe mais paciência.
Todos os dias amo-a um bocadinho mais e adoro que ela esteja comigo segundo após segundo e é só minha.
O primeiro e grande papel de ser mãe é exatamente este.
Todos os dias lhe dou mais vida e ela não me larga.
Vivemos uma para a outra.
E não há ninguém que mais alguma vez ocupe esta importância no nosso coração.
Ser mãe é um privilégio que só pode ter um toque divino.
janeiro 29, 2016
Sempre acreditei que somos protegidos por forças maiores que
não se vêem.
Mas sinto-as desde há muito tempo e nem sempre soube lidar
com elas.
São os anjos de guarda que têm vários rostos.
Alguns são Orixás.
Os Orixás têm músicas e eu costumo cantar a música do meu Orixá
à minha bebé.
É como se fosse a sua canção de embalar.
Ela ouve e acalma.
Eu sinto-me mais protegida assim e sinto-os perto.
E acho que também me embalam.
Ontem numa crise de choro acho que vi alguém passar.
Não sei se estou tonta ou não, mas sei que há energia a mais
para sermos só nós.
O choro passou porque a minha bebé acalmou e a barriga parou
de doer.
Hoje é dia de um dos meus Orixás, por dentro da roupa guardo
um cordão de contas para lhe pedir proteção e eu acho que resulta.
Ele ouve e há qualquer coisa que me acalma.
E não há quem me tire da cabeça que ontem passou por mim…
para me dizer que
está a olhar pela minha bebé.
A bebé que lhe pedi que viesse, quando viajei até ao Brasil
só para os reencontrar.
janeiro 25, 2016
A semana começou com a entrega intensa de pré-inscrições em
creches com apoio social.
A minha filha ainda não nasceu, mas já sou obrigada a pensar
mais além.
Se calhar planeamos tudo demasiado, mas se não for assim
parece que perdemos o comboio.
As escolas onde entro são enormes e as crianças lá dentro
parecem formigas num quartel, parece tudo muito frio e institucional.
Chove a potes e o dia não chega a ver luz, não ajuda a
gostar dos lugares cheios de freiras e gente meio parada no tempo que não sabe
atender duas chamadas ao mesmo tempo.
Numa das escolas somos recebidos por uma freira.
Ela é amorosa.
Diz-me com um ar muito preocupado que a experiência lhe diz
que não se deve deixar bebés tão pequenos numa creche e que o melhor será
ficarem em casa com os avós, ou alguém de confiança.
Ouço-a com um sorriso meio amarelo e penso que me está a
dizer suavemente que a minha bebé não vai entrar.
Respondo que os avós trabalham.
E não lhe explico que ter a tal pessoa de confiança implica
custos que se calhar não podem ser assumidos.
E também não lhe digo que por vontade própria nunca
entregaria uma bebé de 4 meses a ninguém.
Saio com a sensação que não voltarei lá tão cedo.
Entro no carro e continua a chover.
Não me fixo em nada de especial.
Apenas na ideia que a vida que tenho não me permite ser mãe
por muito tempo seguido e que viver nos tempos de hoje é muito mais duro do que
quando eu fiquei entregue à minha avó para ela tomar conta de mim.
Ser mãe nos dias de hoje e não tendo um bom ordenado, é só
para loucos.
Ou muito corajosos.
janeiro 21, 2016
Lembro-me que quando chegava a casa à noite, depois de sair
até tarde com os meus amigos, ainda me ia sentar em frente à televisão a ver um
canal internacional de desporto.
Comia bacalhau desfiado cru e bebia um copo de vinho tinto,
esticava as pernas e o meu coração saltava cada vez que assistia a um combate
de boxe.
Quando ele subia ao ringue era como se a superfície da minha
pele recebesse um estímulo incontrolável.
O meu lutador preferido foi sempre ele. Evander Holyfield. Lembro-me tão bem…
Acho que as raparigas sempre procuraram super heróis, ele
era o meu.
E por isso o boxe sempre me esteve no sangue, como se pertencesse
a uma matriz genética que não se escolhe, mas herda-se.
Passaram anos, mas o gosto não.
Numa destas noites resolvi que a melhor coisa que podia
fazer para descontrair seria ir para a cama ver um filme… de boxe.
Porque estou grávida sei que fico mais sensível com algumas
coisas, mas não mudei, sou a mesma. Movem-me as mesmas coisas.
Enquanto via o filme senti muitas vezes a barriga e pensei
se seria a mãe certa.
A mãe certa vê boxe à noite para relaxar e pratica rpm e
corre?
Se calhar não e isso faz-me pensar se as coisas que me movem
existem por alguma dor mal contida.
Mas fazem-me feliz, então não há nada de errado.
Ou há?
A minha bebé tem sempre as mãos no ar quando a vejo através
das ecografias e esperneia como se quisesse agarrar a vida em cada fração de
segundo.
Será que um dia vai mover-se da mesma forma que eu?
janeiro 20, 2016
janeiro 19, 2016
As mesmas segundas que me irritam, são as mesmas segundas que me fazem mover nem que seja pela irritação que sinto.
Volto para a bicicleta e para as minhas aulas de rpm.
Às vezes esqueço-me que já não estou sozinha e que tenho de me moderar.
Há um bem maior que é a minha bebé e está a crescer na minha barriga.
Volto para a bicicleta e para as minhas aulas de rpm.
Às vezes esqueço-me que já não estou sozinha e que tenho de me moderar.
Há um bem maior que é a minha bebé e está a crescer na minha barriga.
A barriga que não pode dobrar, o coração que já não pode disparar da
mesma forma, nem as pernas podem carregar os pedais com o mesmo esforço.
No fim da aula saio com a sensação que todos me observam como se fosse desadequado fazer desporto.
E, convenhamos, que a minha bebé não adora sempre a ideia de me ter a pedalar, prefere ser ela a dar aos pés por mim.
Vamos ter de negociar com calma.
janeiro 18, 2016
As segundas são o dia em que tenho de recomeçar tudo.
Tudo o que ainda não quero começar.
São o dia em que sinto que ainda não descansei.
O dia em que sinto que recomeça tudo de um passo atrás,
ainda mais atrás.
Onde não há café que me desperte.
Nem força para dar o passo que parece ser sempre o primeiro.
A segunda é o pior dia da semana.
Quando sei que vem aí tudo outra vez.
Uff…
janeiro 12, 2016
bruxa é o meu nome do meio
Adorava não ter a capacidade de ler as pessoas mal as vejo na primeira impressão.
Mas a energia que vem de algumas pessoas é pior que um choque eléctrico.
O que eu gostava de me enganar na primeira impressão e assumir que afinal era eu que estava errada.
Ou não...
janeiro 05, 2016
Depois de quase 4 meses parada, voltar à rotina de me mexer
é quase como andar pela primeira vez.
Depois de ser forçada a abandonar a corrida e o rpm por
correr riscos de perder a gravidez, limitei-me a ver os outros através de uma
montra e como uma criança que não pode comer o chocolate, só me apetecia
chorar.
Mas agora já passou.
O regresso é sempre emocionante e doloroso.
Mas é como renascer e reencontrar-me.
E enquanto volto a dar os primeiros passos nos desportos que
mais amo, penso sempre
“esta sim, sou eu”.
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