Vivi sim, alguns arrebatadores e outros senti-os como
mentira.
Apaixonei-me sim e fiz sempre o que quis na altura que quis.
Errei sim.
E acertei tanto.
Tive sim, todos os desejos do mundo.
Vivi-os na medida que achei serem os certos.
Mas também vivi os desejos errados.
Desisti muito.
E sim, empenhei-me outro tanto.
Vivi tudo num sopro.
E causei tempestades.
Colhi ventos e flores.
Espetei farpas e acumulei os meus próprios espinhos.
Tive sim tudo quanto quis.
Sem culpa. Sem medo, ou complexos.
Sim, fui exatamente tudo o que quis ser.
E hoje não seria tão completa se não tivesse vivido tudo!
fevereiro 08, 2016
Acordamos todos os dias juntas.
E à noite ponho músicas a tocar no telefone em cima da barriga, para que ouça tudo.
Durmo de lado porque é como prefere dormir comigo.
No banho deixo a água quentinha bater na barriga e fico parada a olhá-la..
Faço sumo de laranja e como morangos porque sei que adora.
Atravessamos a rua juntas e ela vai sempre uns milímetros à minha frente.
Quando vem o vento tento fechar o casaco para a proteger, mas já não cabe tudo.
Entro no elevador e vejo-a através de mim.
O meu corpo abraça-a dia a noite.
Nas reuniões quando me chama a atenção a dizer que já tem fome, toco-a por cima da minha pele e peço-lhe mais paciência.
Todos os dias amo-a um bocadinho mais e adoro que ela esteja comigo segundo após segundo e é só minha.
O primeiro e grande papel de ser mãe é exatamente este.
Todos os dias lhe dou mais vida e ela não me larga.
Vivemos uma para a outra.
E não há ninguém que mais alguma vez ocupe esta importância no nosso coração.
Ser mãe é um privilégio que só pode ter um toque divino.
janeiro 29, 2016
Sempre acreditei que somos protegidos por forças maiores que
não se vêem.
Mas sinto-as desde há muito tempo e nem sempre soube lidar
com elas.
São os anjos de guarda que têm vários rostos.
Alguns são Orixás.
Os Orixás têm músicas e eu costumo cantar a música do meu Orixá
à minha bebé.
É como se fosse a sua canção de embalar.
Ela ouve e acalma.
Eu sinto-me mais protegida assim e sinto-os perto.
E acho que também me embalam.
Ontem numa crise de choro acho que vi alguém passar.
Não sei se estou tonta ou não, mas sei que há energia a mais
para sermos só nós.
O choro passou porque a minha bebé acalmou e a barriga parou
de doer.
Hoje é dia de um dos meus Orixás, por dentro da roupa guardo
um cordão de contas para lhe pedir proteção e eu acho que resulta.
Ele ouve e há qualquer coisa que me acalma.
E não há quem me tire da cabeça que ontem passou por mim…
para me dizer que
está a olhar pela minha bebé.
A bebé que lhe pedi que viesse, quando viajei até ao Brasil
só para os reencontrar.
janeiro 25, 2016
A semana começou com a entrega intensa de pré-inscrições em
creches com apoio social.
A minha filha ainda não nasceu, mas já sou obrigada a pensar
mais além.
Se calhar planeamos tudo demasiado, mas se não for assim
parece que perdemos o comboio.
As escolas onde entro são enormes e as crianças lá dentro
parecem formigas num quartel, parece tudo muito frio e institucional.
Chove a potes e o dia não chega a ver luz, não ajuda a
gostar dos lugares cheios de freiras e gente meio parada no tempo que não sabe
atender duas chamadas ao mesmo tempo.
Numa das escolas somos recebidos por uma freira.
Ela é amorosa.
Diz-me com um ar muito preocupado que a experiência lhe diz
que não se deve deixar bebés tão pequenos numa creche e que o melhor será
ficarem em casa com os avós, ou alguém de confiança.
Ouço-a com um sorriso meio amarelo e penso que me está a
dizer suavemente que a minha bebé não vai entrar.
Respondo que os avós trabalham.
E não lhe explico que ter a tal pessoa de confiança implica
custos que se calhar não podem ser assumidos.
E também não lhe digo que por vontade própria nunca
entregaria uma bebé de 4 meses a ninguém.
Saio com a sensação que não voltarei lá tão cedo.
Entro no carro e continua a chover.
Não me fixo em nada de especial.
Apenas na ideia que a vida que tenho não me permite ser mãe
por muito tempo seguido e que viver nos tempos de hoje é muito mais duro do que
quando eu fiquei entregue à minha avó para ela tomar conta de mim.
Ser mãe nos dias de hoje e não tendo um bom ordenado, é só
para loucos.
Ou muito corajosos.
janeiro 21, 2016
Lembro-me que quando chegava a casa à noite, depois de sair
até tarde com os meus amigos, ainda me ia sentar em frente à televisão a ver um
canal internacional de desporto.
Comia bacalhau desfiado cru e bebia um copo de vinho tinto,
esticava as pernas e o meu coração saltava cada vez que assistia a um combate
de boxe.
Quando ele subia ao ringue era como se a superfície da minha
pele recebesse um estímulo incontrolável.
O meu lutador preferido foi sempre ele. Evander Holyfield. Lembro-me tão bem…
Acho que as raparigas sempre procuraram super heróis, ele
era o meu.
E por isso o boxe sempre me esteve no sangue, como se pertencesse
a uma matriz genética que não se escolhe, mas herda-se.
Passaram anos, mas o gosto não.
Numa destas noites resolvi que a melhor coisa que podia
fazer para descontrair seria ir para a cama ver um filme… de boxe.
Porque estou grávida sei que fico mais sensível com algumas
coisas, mas não mudei, sou a mesma. Movem-me as mesmas coisas.
Enquanto via o filme senti muitas vezes a barriga e pensei
se seria a mãe certa.
A mãe certa vê boxe à noite para relaxar e pratica rpm e
corre?
Se calhar não e isso faz-me pensar se as coisas que me movem
existem por alguma dor mal contida.
Mas fazem-me feliz, então não há nada de errado.
Ou há?
A minha bebé tem sempre as mãos no ar quando a vejo através
das ecografias e esperneia como se quisesse agarrar a vida em cada fração de
segundo.
Será que um dia vai mover-se da mesma forma que eu?
janeiro 20, 2016
Há uma máxima na vida que devemos aplicar todos os dias, principalmente quando estendemos a mão para ajudar alguém e levamos um corte.
É que Deus dê em dobro aos outros tudo o que eles nos fazem.
Eu diria que é uma máxima muito boazinha.
Como eu sou.
janeiro 19, 2016
As mesmas segundas que me irritam, são as mesmas segundas que me fazem mover nem que seja pela irritação que sinto.
Volto para a bicicleta e para as minhas aulas de rpm.
Às vezes esqueço-me que já não estou sozinha e que tenho de me moderar.
Há um bem maior que é a minha bebé e está a crescer na minha barriga.
A barriga que não pode dobrar, o coração que já não pode disparar da
mesma forma, nem as pernas podem carregar os pedais com o mesmo esforço.
No fim da aula saio com a sensação que todos me observam como se fosse desadequado fazer desporto.
E, convenhamos, que a minha bebé não adora sempre a ideia de me ter a pedalar, prefere ser ela a dar aos pés por mim.
Vamos ter de negociar com calma.
janeiro 18, 2016
As segundas são o dia em que tenho de recomeçar tudo.
Tudo o que ainda não quero começar.
São o dia em que sinto que ainda não descansei.
O dia em que sinto que recomeça tudo de um passo atrás,
ainda mais atrás.
Onde não há café que me desperte.
Nem força para dar o passo que parece ser sempre o primeiro.
Adorava não ter a capacidade de ler as pessoas mal as vejo na primeira impressão.
Mas a energia que vem de algumas pessoas é pior que um choque eléctrico.
O que eu gostava de me enganar na primeira impressão e assumir que afinal era eu que estava errada.
Ou não...
janeiro 05, 2016
Como é que eu explico às pessoas, sem ser mal educada, que odeio que me tratem por você, só porque acordaram nesse dia possuídas e em versão tia de Cascais semi acabada?
E será que também posso explicar que levar secas de meia hora de alguém que não se cala, me sufoca?
Ai as hormonas!
Depois de quase 4 meses parada, voltar à rotina de me mexer
é quase como andar pela primeira vez.
Depois de ser forçada a abandonar a corrida e o rpm por
correr riscos de perder a gravidez, limitei-me a ver os outros através de uma
montra e como uma criança que não pode comer o chocolate, só me apetecia
chorar.
Mas agora já passou.
O regresso é sempre emocionante e doloroso.
Mas é como renascer e reencontrar-me.
E enquanto volto a dar os primeiros passos nos desportos que
mais amo, penso sempre
“esta sim, sou eu”.
dezembro 28, 2015
Fui ver um filme sobre a velhice.
Apesar do nome ser Youth.
O filme é sobre o que fica do que se viveu quando podíamos viver tudo.
Mas o filme é também sobre o fim das coisas.
A velhice é o fim das coisas.
E ela assombra-me cedo demais quando olho para os meus avós e já não gosto de os ver.
Porque me vejo daqui a um tempo também.
Youth é um daqueles filmes que nos faz ter a sensação que por mais que se viva numa montanha russa, um dia pagamos o preço dela.
E passamos por isso sempre sozinhos.
E é tão decadente.
Como o corpo quando deixa de ser firme e já não se assemelha ao de uma estátua grega.
Ou quando saíamos de uma vida e entravamos noutra porque não tínhamos medo de nada.
A vida vale a pena se for o somatório das paixões que não quisemos deixar de viver.
E dos sonhos que não quisemos deixar de acreditar em cumprir.
A vida sabe melhor se for mais perversa.
E a que causar mais danos.
Mas tem sempre o preço de não poder ser assim eternamente.
Porque o corpo cai.
Como a força da alma.
Como a memória quando entra em blackout. Como a da minha avó.
A minha vida tem sido como esta música.
Mas e quando o corpo parar?
O que será do coração?
E terei memória para ao menos poder recordar?
Como é que eu posso dizer que não quero estar com os meus avós sem que isso os vá magoar?
E quando deixa de ser arrebatador? Continua a valer a pena?
Eu não quero que os meus avós me recordem do que seremos todos um dia...
dezembro 18, 2015
Ligo ao Afonso que hoje faz 10 anos.
É filho de uma das minhas grandes amigas.
Comento com ele que 10 anos é uma idade de viragem, de responsabilidade.
Na verdade queria dar-lhe a ideia que é quase adulto.
Mas o Afonso ainda foi mais longe:
- Pois é, eu sei. A partir de agora tenho 2 algarismos na minha idade, o que significa que nunca chegarei aos 3.
E pronto, percebi que o Afonso já não era criança.
dezembro 16, 2015
Recebi este vídeo num press release de trabalho, sobre
grandes ações publicitárias.
E durante alguns minutos não consegui parar de chorar porque
há coisas que nos ferem mais, outras que nos tocam mais, outras que são o
espelho de qualquer coisa que pertence à nossa essência.
Este vídeo fez-me vir escrever porque ajuda a sentir menos
dor.
Estou grávida.
Aconteceu há pouco mais de 3 meses e eu não estava à espera.
Tentei muitas veze ser mãe, mas sempre que o quis, quis
sozinha e por isso não deu certo.
É justo.
Quis muito casar por duas vezes na minha vida.
Também quis sozinha.
E por isso não aconteceu.
É justo.
Hoje tenho a crescer dentro de mim uma menina.
Ninguém imagina o que eu queria uma menina.
A pessoa de quem estou grávida sempre quis muito tudo de
mim.
Então é justo e merecido que esta menina venha aí.
Ao ver este vídeo percebi que alguém sabia explicar os meus
maiores receios.
Porque eu vivi algumas destas coisas.
Muitas vezes no meu percurso de menina, fui mal tratada.
Algumas vezes no meu percurso de mulher, fui mal tratada.
Sofri na pele a condição de se ser mulher numa sociedade
machista, onde a mulher é sempre a culpada por ter sofrido abusos.
Nos momentos mais violentos da minha vida ninguém me veio
salvar.
Estive sozinha e tive de me defender sozinha.
Nos piores momentos da minha vida não pude pedir por
socorro, vivi tudo num silêncio que achei não ter fim.
Hoje, com uma bebé a crescer dentro de mim, e depois de tudo
o que vivi, morro de medo de não estar lá no dia em que alguém magoe a minha filha.
E isso vai certamente acontecer, porque nunca podemos
proteger para sempre alguém.
Mas sei que serei uma mulher muito mais atenta do que a
maioria, porque já vivi o que muitas felizmente não passaram.
Tenho a crescer dentro de mim uma menina.
Será eventualmente ofendida sim. E olhada como alvo de
desejos errados, sim.
E será invejada e talvez a magoem.
Mas enquanto eu estiver cá, vai ser muito duro para quem se
meter com ela.
E isso eu prometo-lhe.
Não deveria ter sido este o meu texto encantado a anunciar
que vou ser mãe.
Mas foi o mais sentido de todos.
Estou grávida sim.
É uma menina.
É a minha.
E enquanto a vi através da última ecografia manteve sempre um braço no ar, parecia que ia para a frente da batalha.
A minha menina vai ser uma mulher.
E vai adorar, porque é o caminho mais difícil,
mas o mais triunfante.
dezembro 02, 2015
"Se não estás a falhar uma e outra vez é porque não estás a fazer nada muito inovador"
Woody Allen
dezembro 01, 2015
Os meus avós voltaram à fase em que se tornaram crianças.
Falam do mundo deles e geralmente não acompanham mais o
nosso.
Comportam-se à mesa como se nunca tivessem aprendido regras
de boa educação, deixaram a faca e substituíram-na pelo pão e sorvem os
alimentos como se fossem todos escorregar dos talheres.
Ouvem a televisão muito alto e não se ouvem entre si.
Falam pouco porque na verdade parece que vivem cada vez mais
num mundo isolado onde o convívio é com personagens de um passado remoto.
Os meus avós levam demasiado tempo para percorrer uma rua e
cansam-me de tão devagar que andam.
Os meus avós foram durante anos os meus pais, ficando
responsáveis por mim todos os dias.
Tomaram conta de mim enquanto aprendia a comer, o caminho da
escola, a decorar as primeiras informações da História de Portugal, trataram da
minha roupa e dos pães de leite torrados ao pequeno-almoço.
Mas eu não sei cuidar dos meus avós como eles cuidaram de
mim porque eu estava a começar a vida e eles estão a acabar.
Pela primeira vez este ano pensei em fugir e ir passar o
natal a um hotel, numa cidade distante, só para não me lembrar que este pode ser
sempre o último ano que os vou ver.
Ontem, sentada com eles no sofá às 19h, já com os dois de
pijama, o avô quase que adivinhou:
- Este ano vais passear se calhar?
E de repente senti-me a maior cobarde de sempre.
- Claro que não avô, vai ser tudo igual como foi sempre, é
tudo lá em casa.
Ainda assim, este anúncio bateu-me fundo.
Porque eu ando a fugir dos meus avós.
novembro 25, 2015
Todos os dias a mesma rotina.
Ouço as notícias da manhã enquanto como os cereais com frutos vermelhos.
O trajeto de carro sempre igual e a rede do telefone falha sempre no mesmo ponto de passagem.
Paro sempre no mesmo sinal para atravessar a estrada e o cheiro a pão quente recorda-me sempre que o dia ainda está a arrancar.
Sou quase sempre a primeira a chegar e bebo um café de saco enquanto passo os olhos pelo jornal que distribuem gratuitamente na rua.
Há um frio silencioso na sala onde entro todas as manhãs.
Um frio que vem dentro de mim desde que saio de casa e enfrento um caminho que não foi o que planeei.
Nada do que leio ou do que vejo à minha volta me desperta gargalhadas.
Pareço adormecida, sem a garra de outros tempos para ir para a frente da multidão.
Da janela do lugar onde me sento todos os dias vejo um liceu onde brincam todos os dias dezenas de crianças, faça sol, ou um frio de rachar. Elas não mudam consoante o tempo, sentem-se sempre livres.
Do oitavo andar ouço as gargalhadas delas que ecoam de forma vazia em mim.
Quase que invejo a liberdade delas.
Quase que me atormento com a forma resignada com que perdi a minha...
Num dos artigos que leio, os portugueses fazem balanços da percentagem que vão gastar do seu subsídio de natal em presentes de natal.
Eu perdi o meu no dia em que decidi atirar tudo ao ar atrás de uma felicidade que nunca chegou.
Perdi os subsídios e a segurança e o poder.
Porque quis. Por vontade minha. Por achar que um grande amor merecia tudo isso.
Mas perdi tudo, fiquei sem nada porque esse amor abandonou-me na altura em que perdi tudo.
Às vezes ganhamos, às vezes perdemos.
Eu arrisquei tudo e perdi.
E passado quase meio ano sinto-me muito mais fraca e destruída do que no dia em que tudo ruiu.
Lá fora os miúdos correm e gritam, despertam-me a cabeça adormecida numa tristeza que não consigo combater.
Estou cansada de todos os dias ser só isto.
Perdi e então?
Um passo à frente...
O passo que não estou a conseguir dar para ser livre como aquelas crianças dali debaixo.
novembro 10, 2015
Hoje desviei o caminho da estrada e fui espreitar o mar.
Hoje o sol estava a pedir-me para ir atrás dele e deixar-me
ficar, estava a pedir-me para não me mexer como uma roldana mal oleada que faz
o mesmo movimentado esgotado, todos os dias.
E em vez de ir a correr para o meu novo trabalho, resolvi
correr uns segundos para dentro de mim.
Perdi-me no meio de hortas e couves caseiras, sem ninguém,
sem grandes produções.
Perdi-me no simples e isso não me assustou.
Parei em frente ao mar e sentei-me num muro com os pés a
baloiçar no ar.
Como se não pertencesse a regra nenhuma, nem a agendas, nem
às empresas dos outros.
Parei talvez 5 minutos. Terão sido 10?
Sei que ainda não sou aquilo que ambicionei.
Não sou quem planeei ser.
E agora?
Qual dos dois lados da balança devo ouvir?
Não sei dar-me as respostas certas.
Respirei fundo e voltei até à porta do carro.
Mas voltei atrás para ver o mar de novo, como se me falhasse
alguma informação.
E pensei onde anda Deus que não dou por ele nos pormenores…