dezembro 11, 2013
o meu dia
Às vezes custa-nos a acreditar que merecemos ser felizes, como se a seguir tivesse que acontecer algo mau ou negativo.
Talvez porque a felicidade nunca tenha sido facilmente alcançada...
Mas há o dia em que tomamos nós conta do rumo do destino.
E esse é o dia da nossa afirmação mais pessoal.
novembro 15, 2013
O coração é um músculo lixado porque quando nos magoam ele assume o problema como dele, encolhe e fica tão apertado que causa uma dor terrível.
Mirra e fica sem se mexer, como um cubo duro e que ocupa espaço sem nos deixar respirar.
Nestes dias em que o coração toma a dor da alma, eu estico-o e obrigo-o a doer ainda mais.
Puxo-o ao limite e passo aquilo que deveria ser a média de batimentos dele.
E ele segue-me.
E dói menos a seguir porque sabe que ainda aguenta mais.
O meu coração é o meu fiel companheiro, mas sou eu que mando nele.
E por isso ele só dói quando eu mando e não quando os outros me fazem mal.
outubro 29, 2013
outubro 24, 2013
Da nossa vida faz parte a aceitação dos outros.
Aceitar o que já vivemos como um carimbo do nosso álbum de vida.
E o que chega de novo como meta de aprendizagem, mesmo que não nos leve a um lugar melhor.
Às vezes somos obrigados a abrir o círculo para que outros entrem, mesmo não querendo.
E a vida passa a ser regida pelo nosso eu integrado no eu dos outros.
Chegar ao centro de encontro de nós próprios é talvez um processo que demore toda uma vida.
Talvez não chegue esta vida para aceitar tudo...
E este processo que me soa a invasão, causa-me mais dor que conforto.
outubro 23, 2013
outubro 18, 2013
Nas manhãs que ainda gelavam o nariz quando áamos à janela, já ela andava no campo desde madrugada.
A cozinha era aquecida pelo fogão a lenha, já tão negro de ter aquecido tantas mãos e tachos.
Sentava-me sempre numa mesa pequena com toalha de plástico ressequido e pegajoso e ficava a olhar à volta o verde ainda encolhido pela geada.
Havia uma taça castanha muito velha e já estalada, parada na mesa a marcar o meu lugar.
Usava-a sempre para misturar a cevada embebida em açúcar e mergulhar o pão com a margarina mais barata.
Fechava os olhos e aquele pequeno-almoço sabia-me pela vida, o melhor do mundo num só paladar, num só trago.
Lambia a boca toda à volta para apanhar o resto de cevada caida quase até às bochechas.
Vestia-me à pressa, sem banho tomado, e calçava as galochas.
E lá ia eu até ao cimo das escadas de mármore e gritava bem alto:
"Avoooooó Né?".
Ela gritava-me de volta no seu habitual cumprimento matinal.
"UUUUhhhhhhhhhhhhhh".
E eu seguia-a até ao rasto da sua voz e com o coração já tão cheio.
Hoje ao beber um café aguado no meio do meu trabalho e ao olhar pela janela para o céu frio e cinzento, procurei-a.
Não sei se anda lá por fora a cuidar dos animais e das plantas ou se agora anda mais perto de mim, mas senti saudades dela.
A minha avó era feita de aço, sem fraquezas, sem grandes afetos, nem choros, lutava ao frio e à chuva e à esturra do sol, por ela e pela família, era uma sobrevivente, sem ganâncias ou deslumbramentos pelo material, nem pelos outros.
A avó que hoje me falta, ensinou-me que só deixamos de batalhar no dia em que o coração decidir parar de repente...como o dela.
Mas há qualquer coisa aqui dentro que quando bate com mais garra é dela que vem.
É ela.
outubro 15, 2013
outubro 11, 2013
Chegou num fim de tarde de novembro.
Passou devagar pela rua acima enquanto o vento lhe abraçava o peito e abria o casaco pesado de fazenda.
As folhas de outono desviaram-se aos seus pés cada vez que pisou o chão, como se fosse dono de tudo.
Entrou e esboçou um sorriso vivo.
A pele fria e pálida fazia sobressair o negro do olhar escondido entre pestanas curtas.
Tirou as luvas de pele e pediu um chá quente.
O tempo não permitiu que se conhecessem o suficiente, ficou escondido entre tragos de sabor engolido à pressa.
Estendeu um convite e disse que o encontrariam mais logo naquela morada.
Ao levantar-se sorriu e saiu dizendo apenas sobre si que gostava do paladar dos coentros.
Chegou num fim de tarde. Livre.
E ficou.
saltos no tempo
Gostava de ter a pretensão de poder sonhar só com o meu mundo, à minha medida.
Os meus projetos, no meu tempo, na minha vontade.
No meu espaço privado entraria só quem eu quisesse, sem compromissos demasiado articulados.
Gostava de pensar em ter os meus filhos e que essa a vontade fosse partilhada numa esfera em que eu fosse a única dona, sem terceiros no somatório da minha família.
Planeei para mim tudo o que ouvi nos contos enquanto adormecia.
Planeei demais.
Gostava de amar alguém sem passado, nem bagagem, alguém que completasse comigo um caminho que é o primeiro para mim.
À minha volta nascem e batizam-se os bebés das amigas, fala-se do próximo e fazem-se contas à vida para o encaixar.
E eu faço contas à idade e salto fases da minha vida, como se tivesse hipotecada a viver num fim de prazo, no fim do que ainda nem comecei...
E carrego eu o peso da decisão que foi minha e pergunto-me porquê...
outubro 07, 2013
setembro 26, 2013
Houve várias alturas na minha vida em que tudo o que me diziam e todas as ações apontavam para um desfecho negro e doloroso.
Ouvi muitos conselhos dos mais variados pólos a dizer-me que desistisse, que merecia seguir um caminho melhor. Pessoas que gostam de mim incondicionalmente e que não me querem mal... Mas nunca fiz nada do que me disseram.
Senti muitas vezes na pele a sensação do falhanço e do sonho falhado a meio do caminho, sem nunca vislumbrar a meta. Mas nem isso me demoveu de fechar as portas da alma.
Acendi velas e pedi aos meus guias que me indicassem o caminho e nunca ouvi que esse caminho era o do fim.
Houve muitos dias em que tudo me foi negado, em que tudo me fizeram para eu desistir.
E nesses dias adormecia sempre a pedir que a minha voz interior me tocasse com um sino na cabeça e não no coração.
Em todos esses dias em que muitas vezes o único sentimento que existia era o da raiva e da rejeição, em todas essas manhãs, a única voz que ouvi foi de calma e de perseverança.
Todos os dias ao acordar tenho ouvido alguém que me diz baixinho "continua Joana, segue o teu caminho, porque ele não chegou ao fim".
setembro 24, 2013
setembro 23, 2013
Deito-me no sofá já a tarde cai.
Janelas abertas e um olhar perdido entre as paredes vermelhas e a varanda que não me traz uma brisa.
Rodo os olhos, como nas aulas de yoga, e asseguro-me que as minhas andorinhas continuam por cima de mim, na parede principal.
Percorro o olhar por tudo o que fui construindo com o tempo: os cd's de jazz e bossa nova, as fotografias a preto e a branco, os quadros regateados no Marais, as cortinas que precisaram de bainha, os móveis comprados em parcelas, as plantas...
Construí tudo devagar e praticamente sozinha, pela minha vontade, esforço e perseverança.
Aquele é o meu lugar onde ninguém entra para me roubar espaço nem sufocar, o meu porto seguro, onde ninguém se atreve a entrar se não me quiser bem.
Os budas e as velas circulam livremente no chão, acabando por reservarem lugares próprios de meditação.
Tudo o que consegui refletir de mim, do que acredito e do que amo está ali todos os dias comigo. E eu gosto de quem sou, assim como sou.
Passo os programas sem ouvir o conteúdo de cada um, quando a minha cabeça se afunda em pensamentos, não tem lugar para ouvir mais nada.
Não tenho medo do meu silêncio, nem de deixar que as horas me atropelem no sofá.
Medo tenho do que não comando e do que não escolhi.
Perdida em pensamentos no meu sofá, num fim de tarde de domingo em que busco a minha harmonia sei que há uma parte de mim que se apagou e me abrandou os ímpetos.
Do que já vivi, criei e destruí, de tudo o fui para chegar aqui, dona completa do meu tempo e de mim, sei que serei sempre uma lutadora, se for preciso andar descalça e voltar a construir um caminho, vou fazê-lo. Se precisar de recomeçar uma casa e as suas memórias, vou fazê-lo.
Se a vida me obrigar a reconstruir-me, eu sei fazê-lo.
Mas será que eu quero passar por tudo isso?
setembro 20, 2013
na essência do subtil
Acredito nos sinais das coisas.
E que as perguntas que faço para o ar, têm sempre um interlocutor.
Acredito que o tempo tem o seu tempo certo de acontecer.
E que o mundo nos rodeia diarimente com mensagens, lições.
Mas todas estas coisas acontecem no tempo que tem de ser, no tempo que faz sentido.
Não no nosso, cheio de pressa e vontade.
E é nesse equilíbrio tão imperfeito que encontramos a vida e o melhor dela.
Acredito nos sinais das coisas.
E que as perguntas que faço para o ar, têm sempre um interlocutor.
Acredito que o tempo tem o seu tempo certo de acontecer.
E que o mundo nos rodeia diarimente com mensagens, lições.
Mas todas estas coisas acontecem no tempo que tem de ser, no tempo que faz sentido.
Não no nosso, cheio de pressa e vontade.
E é nesse equilíbrio tão imperfeito que encontramos a vida e o melhor dela.
setembro 09, 2013
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