outubro 24, 2013


Da nossa vida faz parte a aceitação dos outros.
Aceitar o que já vivemos como um carimbo do nosso álbum de vida.
E o que chega de novo como meta de aprendizagem, mesmo que não nos leve a um lugar melhor.
Às vezes somos obrigados a abrir o círculo para que outros entrem, mesmo não querendo.
E a vida passa a ser regida pelo nosso eu integrado no eu dos outros.
Chegar ao centro de encontro de nós próprios é talvez um processo que demore toda uma vida.
Talvez não chegue esta vida para aceitar tudo...
E este processo que me soa a invasão, causa-me mais dor que conforto.


outubro 23, 2013

obstinação é amor


Escolhi um caminho.
E é por esse que vou seguir.
Dificultem-no.
Ou não.

outubro 18, 2013


Nas manhãs que ainda gelavam o nariz quando áamos à janela, já ela andava no campo desde madrugada.
A cozinha era aquecida pelo fogão a lenha, já tão negro de ter aquecido tantas mãos e tachos.
Sentava-me sempre numa mesa pequena com toalha de plástico ressequido e pegajoso e ficava a olhar à volta o verde ainda encolhido pela geada.
Havia uma taça castanha muito velha e já estalada, parada na mesa a marcar o meu lugar.
Usava-a sempre para misturar a cevada embebida em açúcar e mergulhar o pão com a margarina mais barata.
Fechava os olhos e aquele pequeno-almoço sabia-me pela vida, o melhor do mundo num só paladar, num só trago.
Lambia a boca toda à volta para apanhar o resto de cevada caida quase até às bochechas.
Vestia-me à pressa, sem banho tomado, e calçava as galochas.
E lá ia eu até ao cimo das escadas de mármore e gritava bem alto:
"Avoooooó Né?".
Ela gritava-me de volta no seu habitual cumprimento matinal.
"UUUUhhhhhhhhhhhhhh".
E eu seguia-a até ao rasto da sua voz e com o coração já tão cheio.

Hoje ao beber um café aguado no meio do meu trabalho e ao olhar pela janela para o céu frio e cinzento, procurei-a.
Não sei se anda lá por fora a cuidar dos animais e das plantas ou se agora anda mais perto de mim, mas senti saudades dela.
A minha avó era feita de aço, sem fraquezas, sem grandes afetos, nem choros, lutava ao frio e à chuva e à esturra do sol, por ela e pela família, era uma sobrevivente, sem ganâncias ou deslumbramentos pelo material, nem pelos outros.
A avó que hoje  me falta, ensinou-me que só deixamos de batalhar no dia em que o coração decidir parar de repente...como o dela.
Mas há qualquer coisa aqui dentro que quando bate com mais garra é dela que vem.
É ela.

outubro 15, 2013


Entre o tempo que passou e o que a idade nos ensinou, percebemos que se acabam as borboletas no estômago e fica apenas o compromisso de buscar uma prioridade para cumpruir a nossa missão na vida.
Todo o resto são ilusões que pertenciam à infância.
Os tempos da ilusão morrem quando crescemos.

outubro 11, 2013


Chegou num fim de tarde de novembro.
Passou devagar pela rua acima enquanto o vento lhe abraçava o peito e abria o casaco pesado de fazenda.
As folhas de outono desviaram-se aos seus pés cada vez que pisou o chão, como se fosse dono de tudo.
Entrou e esboçou um sorriso vivo.
A pele fria e pálida fazia sobressair o negro do olhar escondido entre pestanas curtas.
Tirou as luvas de pele e pediu um chá quente.
O tempo não permitiu que se conhecessem o suficiente, ficou escondido entre tragos de sabor engolido à pressa.
Estendeu um convite e disse que o encontrariam mais logo naquela morada.
Ao levantar-se sorriu e saiu dizendo apenas sobre si que gostava do paladar dos coentros.
Chegou num fim de tarde. Livre.
E ficou.

saltos no tempo



Gostava de ter a pretensão de poder sonhar só com o meu mundo, à minha medida.
Os meus projetos, no meu tempo, na minha vontade.
No meu espaço privado entraria só quem eu quisesse, sem compromissos demasiado articulados.
Gostava de pensar em ter os meus filhos e que essa a vontade fosse partilhada numa esfera em que eu fosse a única dona, sem terceiros no somatório da minha família.
Planeei para mim tudo o que ouvi nos contos enquanto adormecia.
Planeei demais.
Gostava de amar alguém sem passado, nem bagagem, alguém que completasse comigo  um caminho que é o primeiro para mim.
À minha volta nascem e batizam-se os bebés das amigas, fala-se do próximo e fazem-se contas à vida para o encaixar.
E eu faço contas à idade e salto fases da minha vida, como se tivesse hipotecada a viver num fim de prazo, no fim do que ainda nem comecei...
E carrego eu o peso da decisão que foi minha e pergunto-me porquê...



outubro 08, 2013


A inveja é a forma distorcida que algumas pessoas encontraram para idolatrar outras.

setembro 26, 2013



Houve várias alturas na minha vida em que tudo o que me diziam e todas as ações apontavam para um desfecho negro e doloroso.
Ouvi muitos conselhos dos mais variados pólos a dizer-me que desistisse, que merecia seguir um caminho melhor. Pessoas que gostam de mim incondicionalmente e que não me querem mal... Mas nunca fiz nada do que me disseram.
Senti muitas vezes na pele a sensação do falhanço e do sonho falhado a meio do caminho, sem nunca vislumbrar a meta. Mas nem isso me demoveu de fechar as portas da alma.
Acendi velas e pedi aos meus guias que me indicassem o caminho e nunca ouvi que esse caminho era o do fim.
Houve muitos dias em que tudo me foi negado, em que tudo me fizeram para eu desistir.
E nesses dias adormecia sempre a pedir que a minha voz interior me tocasse com um sino na cabeça e não no coração.
Em todos esses dias em que muitas vezes o único sentimento que existia era o da raiva e da rejeição, em todas essas manhãs, a única voz que ouvi foi de calma e de perseverança.
Todos os dias ao acordar tenho ouvido alguém que me diz baixinho "continua Joana, segue o teu caminho, porque ele não chegou ao fim".

setembro 24, 2013


Os meus sonhos tornaram-se em pesadelos.
E agora como é que eu acordo do sonho e fujo dele?
E qual é o meu tempo?

setembro 23, 2013



Deito-me no sofá já a tarde cai.
Janelas abertas e um olhar perdido entre as paredes vermelhas e a varanda que não me traz uma brisa.
Rodo os olhos, como nas aulas de yoga, e asseguro-me que as minhas andorinhas continuam por cima de mim, na parede principal.
Percorro o olhar por tudo o que fui construindo com o tempo: os cd's de jazz e bossa nova, as fotografias a preto e a branco, os quadros regateados no Marais, as cortinas que precisaram de bainha, os móveis comprados em parcelas, as plantas...
Construí tudo devagar e praticamente sozinha, pela minha vontade, esforço e perseverança.
Aquele é o meu lugar onde ninguém entra para me roubar espaço nem sufocar, o meu porto seguro, onde ninguém se atreve a entrar se não me quiser bem.
Os budas e as velas circulam livremente no chão, acabando por reservarem lugares próprios de meditação.
Tudo o que consegui refletir de mim, do que acredito e do que amo está ali todos os dias comigo. E eu gosto de quem sou, assim como sou.
Passo os programas sem ouvir o conteúdo de cada um, quando a minha cabeça se afunda em pensamentos, não tem lugar para ouvir mais nada.
Não tenho medo do meu silêncio, nem de deixar que as horas me atropelem no sofá.
Medo tenho do que não comando e do que não escolhi.
Perdida em pensamentos no meu sofá, num fim de tarde de domingo em que busco a minha harmonia sei que há uma parte de mim que se apagou e me abrandou os ímpetos.
Do que já vivi, criei e destruí, de tudo o fui para chegar aqui, dona completa do meu tempo e de mim, sei que serei sempre uma lutadora, se for preciso andar descalça e voltar a construir um caminho, vou fazê-lo. Se precisar de recomeçar uma casa e as suas memórias, vou fazê-lo.
Se a vida me obrigar a reconstruir-me, eu sei fazê-lo.
Mas será que eu quero passar por tudo isso?



setembro 20, 2013

na essência do subtil


Acredito nos sinais das coisas.


E que as perguntas que faço para o ar, têm sempre um interlocutor.

Acredito que o tempo tem o seu tempo certo de acontecer.

E que o mundo nos rodeia diarimente com mensagens, lições.

Mas todas estas coisas acontecem no tempo que tem de ser, no tempo que faz sentido.

Não no nosso, cheio de pressa e vontade.

E é nesse equilíbrio tão imperfeito que encontramos a vida e o melhor dela.

setembro 12, 2013


Quando falamos com uma pessoa estrábica, para que olho olhamos?

setembro 09, 2013


Sabemos que estamos bem connosco quando acordamos cedo e saimos para correr num lugar que nos é estranho e não temos medo do tempo, nem do silêncio.
E corremos, orgulhosos por gostarmos tanto da nossa própria companhia que ela nos completa como se todo o mundo assistisse à nossa etapa.


agosto 23, 2013



Ajusto a bicicleta a mim, sabendo que hoje ela não me pertence.
Apagam-se as luzes e ecoam as primeiras palavras de ânimo para quem tem 1 hora para deitar fora suor e raiva e uma dor por dentro que precisa de resposta.
Baixo a cabeça e olho para os pés e peço baixinho que eles voem até não aguentar mais, mas hoje eu não comando nada.
Hoje não controlo os pensamentos.
Prendo um dos ténis num pedal e rebento os atacadores numa explosão de barulho.
Não sinto dor.
Mas é o atacador preso que me trava à força, como se a vontade fosse de explodir toda.
Tenho de desistir hoje. Foi a primeira vez.
Liberto o atacador e olho um pedaço de calçado rasgado.
Ficam sempre vestígios de uma dor que não sinto fisicamente.
Penso que nunca será nos momentos de raiva que me vou superar e chegar mais longe.
É preciso estar em paz para me ultrapassar e ouvir a razão de ser das coisas.


Podia virar o meu mundo todo ao contrário e começar de um ponto zero e iludir-me que isso apagaria todos os meus propósitos até aqui.
Se soubesse que ao mudar de país, de língua, tudo se apagaria para trás, eu fugia num avião.
Podia tomar drogas que me iludissem a memória e talvez a origem da minha vontade se apagasse também.
Podia tentar nascer de novo, noutra morada e inventava novas raízes e valores e virava-me do avesso.
Mudaria de nome e cortava o cabelo se isso me mudasse por dentro.
Eu podia tentar fazer tudo para ser outra pessoa, se eu soubesse que isso mudaria o rumo...
Se eu pudesse recuar no meu passado e mudar a origem da minha própria espécie, talvez eu pudesse ser quem não sou.
Mas dizem-me que se sair do país levo comigo as memórias de cá.
E dizem-me que se fugir ao meu próprio pensamento, ele trai-me e assombra-me de novo nem que seja num sonho.
Dizem-me que não adianta se a tinta do cabelo for mais escura, que ela não disfarça a clareza do olhar.
E eu faço equações do que posso apagar ou esquecer... ou negar tudo o que sou se em troca alguma coisa mudar.
Mas parece que nada adianta...
Na minha origem nasci com um carimbo de personalidade própria e vontade e projetos que hoje não me acompanham e não sei se parto de mim mesma ou se esqueço tudo o que quis até hoje.
Talvez se eu arrancasse esta pele, nascesse outra?
Talvez se me perdesse e deixasse cá a memória e o coração, talvez alguém me encontrasse diferente?
Vou ou fico?
Faço ou não faço nada ou tudo?
Eu podia mudar o mundo se soubesse que isso me mudaria a mim...

agosto 16, 2013



Gostava sempre de por as nossas duas fotos ao lado uma da outra. Ambas de perfil e a preto e branco. E dizia sempre: "não somos iguais?".
Nunca lhe perdoei a Barbie que me estragou, quando a atirou contra o sofá e a cabeça saltou como se sempre tivesse tido a vontade própria de sair daquele corpo cheio de mamas e cintura estreita.
Desafiava-me a paciência cada vez que me tentava domar à força, com palavras pesadas e moralistas. E eu retorquia de diversas formas, quando lhe atirei com uma maçã já mordida, ou quando corria à volta da mesa a desafiar que me apanhasse e travava até estar quase nas mãos dela.
Só lhe pedi uma vez que me levasse com ela à missa, queria fugir de uma miúda insuportável que brincava comigo lá em casa e não vi outra desculpa melhor. Na altura respondeu-me: "deves estar para aprontar alguma, tu não gostas de ir à missa".
Aprendi a cozinhar das tantas vezes que a observei e o sentido que ganhei pela casa e pela organização é dela. Uma cozinha nunca fica por arrumar e só nós é que o sabemos fazer na perfeição!
Gostava de comprar roupa, mas fingia que era só quando era mesmo necessário. Depois experimentava a roupa em casa e olhava-se ao espelho e perguntava: "achas que me fica bem?". E quer eu dissesse que sim ou não, era indiferente. Rematava sempre: "não me fica bem aqui... olha, vou trocar".
Fez sempre o que lhe apeteceu, mas disse sempre que era em nome dos outros. Mas não era verdade, era pela exclusiva vontade dela.
Não gosto de sopa por causa dela.
Não acredito na igreja porque me obrigou a acreditar em razões sem me saber dar os argumentos certos.
Sempre quis ser o oposto dela, mas o facto é que somos parecidas.
Ainda mantém alguns cabelos loiros, o resto inundou-se de branco.
Ficou apenas o olhar azul já sem ser tão reprovador.
Agora dispersa-se e troca as conversas e faz a mesma pergunta 100 vezes.
Se lhe contar tudo isto ela vai sorrir mesmo que não se lembre.
Mas lembra-se de mim, mesmo que tenha parado algures no tempo.
Mesmo que acorde no sofá à noite e pergunte: "a nossa Joaninha já chegou da escola?".
A avó Carmo tem alzheimer e está a ficar sem a vida que tantas vezes me irritou.
E eu ainda não percebi se aceito que este seja o nosso desfecho...

agosto 14, 2013


Os tempos mudaram por cá.
Acabaram-se os mergulhos rápidos na praia, quando o almoço permitia que o tempo fosse dono da vontade.
As pessoas tornaram-se mais sedentas de egos e de espertezas básicas como se tivessem regressado aos tempos da escola.
Não há festas nem bolos com velas para apagar, nem brindes onde acreditámos ser uma segunda família.
Come-se pior, mas paga-se menos. A qualidade passou a ser um capricho como se fosse um traço dos de direita.
Há menos amigos e menos gente feliz. Há menos gente. Menos almas a pôr alma nas coisas.
O Natal já não nos emociona se vier acompanhado de bolo rei. Já não há bolo rei.
Lisboa deixou de ser um porto de abrigo e um escape nas horas em que o sol cortava a direito a rua do Alecrim.
Aqueles que chegam já não têm vontade de aprender e acham que dominam o mundo como se tudo fosse um direito adquirido e sem obrigações. Acham-se iguais quando ainda não deram provas de o merecer.
Os tempos mudaram-nos.
Separaram-nos de amigos e criaram buracos de afetos e desconfiança.
O medo passou a fazer parte do nosso cartão de visita e o sonho de nos ultrapassarmos a nós próprios acabou.
Os tempos mudaram por cá.
Com menos empenho, crença, com a vontade roubada à força e o brio corroído pelos mais pobres de espírito, desencontrámo-nos do tempo em que eramos pioneiros de qualquer coisa, nem que fosse da ilusão.
Aquele tempo em que achámos que seríamos alguém e saboravamos os dias com o paladar que só a vida dá, só a vida tira.
Aquele tempo que felizmente também já acabou, mas que era mais rico do que este que nos obriga a viver sempre com tão pouco...
Tão pouco de espírito...